sexta-feira

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abril 2004

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No auge, uma chapada

Written by , Posted in Resenhas

17/07/02
Canecão, Rio de Janeiro

Dizer que uma banda está no auge é sempre uma afirmação complicada. Primeiro, porque não dá para dizer que uma banda está em seu ponto mais alto se ela ainda não acabou. Depois, porque nenhuma banda gosta de ouvir que está no auge. Para um artista, admitir que está no auge é aceitar que daquele ponto em diante a carreira vai descer ladeira abaixo.

Mas nem sempre é assim. E com certeza não parece que será assim com o Los Hermanos. Algumas bandas estendem seu auge com muita competência. Ultimamente a tendência é enxergar o auge como um pico, um cume a ser atingido rapidamente. O artista tem que atingir este ápice e dar vez ao próximo super-mega-sucesso-do-verão, numa espécie de pique-pega. Poucas bandas pensam em construir uma carreira. Poucos artistas enxergam o auge como uma chapada, longa e contínua, e não um pico a ser conquistado.

O Los Hermanos pensa assim. Não é à toa que bancou um disco autoral, o excelente “Bloco do eu sozinho”, quando a gravadora queria algo mais comercial. E eles estavam certos, o show do Canecão foi a prova disso. O mais impressionante não era o fato do show estar lotado, e sim como todas as músicas – todas mesmo – eram cantadas do começo ao fim por uma platéia alucinada, pulando sem parar. O baterista Barba definiu bem o clima do show quando disse que parecia que estavam “tocando um hit atrás do outro!”. Tem sido raro escutar Los Hermanos no rádio ultimamente, portanto, eles não têm tantos hits assim. Mas só por isso mesmo não têm os tais hits, porque para quem escuta o disco a sensação é de escutar um hit atrás do outro. Vendo aquela multidão gritando as letras dos discos junto com a banda fica a pergunta: o que é comercial então?

O Los Hermanos está no auge. Quanto tempo isso vai durar ninguém sabe, mas é no palco que a banda deixa isso claro. Lá eles transparecem o bom momento que estão passando. A impressão que dá é de que naquela hora, em que estão juntos tocando, as músicas atingem seu significado completo. É muito legal ver os integrantes conversando e rindo durante as partes instrumentais, curtindo mesmo estar ali. Alternando músicas próprias com versões de Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes e Belchior. Melhor ainda é, quando o show acaba e os integrantes abandonam seus instrumentos um a um, ver todos eles abraçados, dançando e esperando os outros acabarem de tocar.

São poucas as bandas que tem potencial de ficar para história, de se tornar atemporal e continuar sendo ouvida anos depois. Sabe quando você está escutando um Jorge Ben de 74 e teu pai te pergunta “de onde você conhece isso?”, ou conta que foi no show desse disco? Pois é, dá para imaginar, daqui uns vinte e poucos anos, quem estava no Canecão contando sobre o antológico show quando escutar o som do “Bloco do eu sozinho” saindo do quarto do filho.

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