segunda-feira

18

maio 2009

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As exigências do rei

Written by , Posted in Hoje tem, Música, Resenhas

Podem falar o que quiser, que ninguém mais ouve um disco inteiro, que o formato físico está com os dias contados, etc. Uma coisa permanece igual. Não tem maneira mais legal de conhecer e pesquisar novos sons do que ir numa loja de discos.

Nesse momento de transição, esses espaços tem que rever o seu foco comercial, valorizando o aspecto de ser um lugar de encontro e de trocas. Nesse sentido a Rough Trade East, em Londres, tem explorado isso de maneira exemplar.

Num mundaréu de discos, aqueles que estão em destaque nas estações de audição da loja acabam saltando na frente. É o trabalho de filtro, também feito por blogues online, só que com um peso diferente por estar no mundo real. Foi nessa que ouvi “Flick the Vs”, do King Creosote.

Embora tenha lançado mais de 30 discos, entre EPs e compactos, por sua própria gravadora, a Fence Records, “Flick the Vs”, lançado em abril, é considerado por Kenny Anderson, o nome por trás do King Creosote, como o seu quinto álbum

É também com ele que tem chamado mais atenção. Não sei se porque o nome soava como banda de metal ou porque remetia ao progressivo King Crimson, nunca tinha parado pra ouvir nada do King Creosote. Por isso, tomei um susto quando escutei a primeira música,”No One Had It Better”.

A faixa leva 1 minuto e 44 segundos para começar se resolver, uma eternidade atualmente. A confusão entre programação eletrônica, vocoder e sintetizadores, vai tomando forma lentamente, até a bateria entrar forte, os acordes se desenharem com mais clareza, o dedilhado da guitarra arredondar o arranjo e o vocal convidar, insistentemente: “If you want this, you can have it”.

A oferta é sincera. “Flick the Vs” é um disco esquisito, denso, em que todas as canções demoram mais do que o normal pra acontecer. Normalmente Kenny espera para revelar as melhores melodias lá pelo meio das músicas. Se você quiser encarar, pode ficar

Em tempos imediatistas, desafiar o ouvinte a sentar e escutar as canções, sem oferecer atalhos, exigindo atenção e paciência, é uma atitude corajosa. Os que toparem farão uma grande viagem, essa é a única recompensa.

Conforme o disco vai descendo, diferentes nomes vão passando pela cabeça. As loucuras sonoras do Of Montreal, a psicodelia do MGMT, os vocais do Radiohead, o folk revisitado do Beirut e o tradicional do Fleet Foxes, a esquizofrenia do Cidadão Instigado e a pegada pop do Magic Numbers são alguns deles.

É um disco rico a beça. Ainda que estejam bem altas em diversos momentos, as programações eletrônicas se misturam aos instrumentos orgânicos de uma maneira delicada, lembrando o trabalho do Berna Ceppas no disco “Eu Não Peço Desculpas” (Caetano & Mautner), principalmente “Coisa Assassina” (Gil & Mautner).

Os arranjos de metal são esquisitos, quase sempre feitos só de ataques e staccatos, enquanto sintetizadores e órgãos fazem a cama e vão induzindo ao transe que te carrega por todo o disco.

As músicas vão passando e as mudanças de andamento e arranjos na mesma faixa, do acústico ao eletrônico em milisegundos, desorientam, borrando o começo de uma e o final da outra.

O tempo que leva para pulsação sub-grave de “Fell An Ox” se transformar numa balada riponga pra ouvir de manhã no meio do mato, ou para “Two Flocks At a Wedding” encontrar seu groove, ilustram a calma para construir os climas, um dos pontos mais fortes de “Flick the Vs”.


“Coast On By”

Ouvir a maior parte dessas músicas no rádio é impensável, sobretudo pela longa duração das faixas. Embora “Rims” e “No Way She Exits” pudessem ter uma chance em algum programa alternativo, foi “Coast On By” que conseguiu executar a tarefa, sendo nomeada “música da semana” na BBC Radio 2.

Pra um disco se tornar memorável, não basta uma sequência de boas músicas na mesma média. Tem que haver uma que se destaque, que faça você querer voltar ao disco e ouvir ele inteiro só pra chegar naquela canção novamente.

“Flick the Vs” tem essa música. Coerente com a própria estrutura geral das composições, você precisa atravessar quase o álbum todo para se deparar com a belezura de “Curtain Craft”. E a graça é essa, a viagem. Melhor que simplesmente pular até a música 9.

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