segunda-feira

29

novembro 2004

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Funk + funk no reduto do fuck

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Catra_VM.jpg
Catra descascando. A dançarina também.
foto: Matias Maxx

Na Vila Mimosa, tradicional (?!) zona de baixo meretrício carioca, as noites são quase sempre parecidas. O churrasquinho com cerveja come solto na rua principal, a rapaziada entorna nos bares e observa a mulherada circulando só de calcinha e sutiã (as vezes nem isso) pelo caminho de paralelepípedos. Os freqüentadores circulam pelos corredores estreitos em busca da melhor birosca pra tomar uma cerveja, conversar com uma gatinha e, se for o caso, pagar vintão por um programa de meia-hora num dos privês disponíveis.

Antes de se transformar no Vila Show – Club 59, o espaço onde agora fica a boate era apenas mais um dos muitos becos da VM. Às quintas-feiras, desde que ganhou uma porta, uma bilheteria (R$5) e passou a ser o local dos ensaios abertos de “Só Judas tá fora”, show da banda Mr. Catra e os Apóstolos, as coisas mudaram um bocado.

Chegar lá é fácil — não tem taxista que não saiba onde é — e o negócio começa manso. Ou melhor, tão manso quanto é possível numa casa da Vila Mimosa. O DJ bota clássicos do funk carioca, num bailinho improvisado, enquanto a galera sacoleja, espremida entre putas, clientes e gente que está ali só pra ver qual é. Orgulhoso, depois de se esnobado por uma das garotas, um cara se apressa em mostrar no celular uma foto da dita cuja de peito de fora, tirada numa visita anterior. Fã.

Não se deixe enganar pelo recente hype. Apesar da presença de DJs, fotógrafos, gente de outros estados, figurinhas da Zona Sul e gringos (os ingleses do Super Furry Animals, no Brasil gravando o disco novo, foram levados por Mario Caldato Jr.), o público ainda é majoritariamente local e o lugar é hardcore. Não tem maquiagem. Numa rápida volta pela Vila, você vê desde meninas à serviço e gente fazendo tatuagem numa banquinha na calçada, à manchas de sangue feitas com o dedo na parede do banheiro (R$0,50 pra usar).

O barato do lugar é exatamente ser do jeito que é, do contrário nem faria sentido uma visita. Como Mr. Catra repete diversas vezes, “o bagulho é louco”, sound system de dancehall na Jamaica não chega nem perto. A receita “baile funk no puteiro” é explosiva. Entre os forasteiros, é difícil diferenciar quem está ali pelo lugar e quem está apenas curtindo o safári social, observando o zoológico humano que se apresenta e fazendo julgamentos. Provavelmente, estão fazendo um pouco dos dois.

Quase 1h da manhã, com o Club 59 cheio, Mr. Catra é anunciado. O palco improvisado fica numa das paredes laterais, no meio do corredor, e não no fundo, como era de se esperar. Na parede oposta, silhuetas projetadas nas cortinas das janelas iluminadas das suítes logo acima fazem as vezes de telão. Antes de Catra começar, o mestre de cerimônias Eddie (referência à mascote do Iron Maiden) pede desculpas pelo atraso e justifica os problemas dizendo: “isso aqui é um puteiro, então é putaria mesmo!”. Justo. Eddie continua no palco durante todo o show, usando uma garrafa de Guaraplus como microfone e dançando sem parar.

Mr. Catra reza o Pai Nosso em voz alta antes de saudar a platéia com a pérola “babar meu ovo é fácil, quero ver chupar meu pau”. Um recado para os turistas? Pode ser. Com dois guitarristas, baixista, baterista, percussionista e os DJs Sandrinho e Neurose soltando as bases, Os Apóstolos são a primeira banda de funk carioca de que se tem notícia. Como disse Matias Maxx, um belo dum cala-a-boca pra quem gosta de dizer que funk não é música.

Buscando uma maneira de tocar os pancadões eletrônicos com uma banda, os músicos percorreram a linha evolutiva do funk carioca de trás pra frente até chegar na trilha dos primeiros bailes nos morros. A solução estava mesmo lá. Ao retornar ao funk e ao soul de origem, sem perder o batidão ou o minimalismo, os Apóstolos ajudam a esclarecer o porquê do nome funk. Cheias de groove, as bases servem como um teste de DNA do gênero. Os graves pulsam como o baixo de um funkão setentista, a bateria programada quebra igual a irmã acústica. Em vez de funk carioca, funk digital parece um termo mais apropriado.

Dono da festa, Mr. Catra convida a mulherada pra subir no palco, proporcionando cenas inusitadas, como uma dupla sabe-se lá de onde (pelos trajes comportados, certamente não dali) dançando e cantando “Gatinha, assim você me assusta / Com quê, com quê, com quê? / com o seu capozão de Fusca”. Os proibidões não têm vez num show em que até “Sossego”, do Tim Maia, é citada.

Na saideira, o clássico “Bonde dos Maconheiros” (Ô, ô, ô, ô, ô! Cadê o isqueiro…), sobre a base de “Next Episode”, do Dr. Dre. Assim que acaba de cantar, Mr. Catra sai do palco direto pra rua e desaparece no meio da multidão. Sem fazer bis, sem promover seus próximos shows e sem muitos agradecimentos. Sem média, enfim.

Não vai demorar e, como um set do Marlboro, esse show vai estar em tudo quanto é parte do Rio. Certamente, não vai ter a mesma graça

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