quinta-feira

12

abril 2012

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Entrevista – Lucas Santtana

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Antes de escrever uma resenha, preferi ouvir o disco novo do Lucas Santtana mais vezes e dar um tempo para ver o que surgia . Depois de algumas audições de “O Deus Que Devasta Mas Também Cura” (oferecido gratuitamente pelo próprio artista, fato cada vez mais comum no Brasil), percebi que valia mais uma conversa do que uma crítica – eram muitas questões e observações, de um disco que a cada volta oferece mais conteúdo.

Convidei ele para uma conversa e, além da produção do disco, Lucas acabou falando também da indústria fonográfica, as abordagens da sua geração e “sofisticação musical”. O resultado você lê abaixo.

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URBe – Nesse disco todos aspectos e influências da sua música que apareceram isoladamente nos discos anteriores, misturam-se. Afrobeat, ghettotech, dub, samba, bossa-nova, tropicalismo, pós-produção e efeitos… Tem um pouquinho de cada coisa permeando. Foi uma decisão consciente?

Lucas Santtana – Não, muitas coisas nos discos acontecem durante o processo. E como você está muito mergulhado nele fica difícil de ter esse controle todo… Toda essa percepção (ainda mais quando você é também o produtor do disco). Acho bastante saudável não ter essa consciência, senão vira uma peça publicitária e não um disco onde você está buscando sons e idéias sem saber se vão dar certo mesmo ou não. Isso que você falou eu só percebi muito tempo depois dele estar pronto. Acho que isso é natural, porque quando você tem um trabalho autoral, o que torna ele autoral dentre outras coisas é justamente o acúmulo de algumas idéias que já foram visitadas.  E que vão sedimentando essa autoralidade.

URBe – Agora que esse disco saiu assim, você imagina que pode ser uma ruptura, te obrigando a abrir um novo caminho no próximo?

Lucas Santtana – Eu procuro não me tornar escravo de nada. Todos os meus discos até agora foram difertentes entre si, mas isso não pode virar uma regra. Todos os meus discos acabam tendo uma amarração estética, um mote que permeia todo o disco, mas isso também não pode virar uma obrigação. Isso rolou assim até agora naturalmente, por um desejo meu de explorar e aprender com alguns universos musicais bem definidos, como o dub, o voz e violão, o baile funk e a liturgia rítmica dos tambores.

Na verdade, já sei exatamente como será meu próximo disco, até já conversei com um amigo nosso em comun, mas até lá muita coisa vai rolar, então talvez esse disco não seja o próximo, fique para depois porque pode aparecer outra coisa mais urgente. Enfim, uma das coisas boas de não ser um artista muito popular é ter essa liberdade de fazer o que quer na hora que quer, da espectativa com a aceitação não ser algo nocivo.

A Anna Dantes, mãe do meu filho e dona da Editora Dantes, é muito boa em entender e definir coisas. Ela criou esse termo incrível, “Setor X”, que acabou virando uma revista e um projeto estadual de cultura no Rio. Fazendo uma analogia, acho que a minha geração na música popular brasileira é a geração X, porque ninguém consegue catalogá-la. Eu não toco muito em rádio no Brasil mas toco no programa do Gilles Peterson para 20 milhões de ouvintes em todo mundo. A Céu não toca no Faustão nem no Esquenta, mas toca no Jools Holand para uma audiência mundial também. Nós entramos em trilha de novela mas não pagamos jabá para isso. Ou seja, a gente vive nas entrelinhas do sistema, não é mainstream e não é indie.

Por isso quando você me pergunta em “novo caminho”, em penso que essa geração vive num novo caminho o tempo todo. Hahahahaha!

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URBe – Você sempre colabora com bastante gente nos seus discos. Como se dá a escolha dos convidados? São os mais próximos na época ou você vai atrás de nomes específicos pra executar uma ideia?

Lucas Santtana – Por afinidade musical. Não posso chamar todas as pessoas que tenho afinidade musical, senão o disco não acaba nunca. Mas as que convido são por esse motivo. O produtor de um disco é uma especie de curador. Ele tem que entender o que cada música precisa e quem pode catalizar aquela idéia melhor. Trazendo um lado pessoal que some ao todo.

Alguns eu chamo por estarem próximos, como os irmãos Amabis e o Gilberto Monte, com quem venho colaborando em projetos deles. Outros eu vou atrás por saber que são as melhores pessoas para realizar aquilo que estou pensando para aquela música. Por exemplo, nesse disco o Morotó Slim, da banda Retrofoguetes, só ele para fazer aquelas guitarras meio surf music, meio rockabilly do “Se pá ska S.P.”. Ele é mestre nisso.

Quando penso numa idéia musical, procuro quem irá realizá-la. E não só isso, sei que aquele músico irá levar a minha idéia além, me obrigando a rever o caminho proposto e aceitar os desvios de percurso. E obviamente isso altera o resultado final. Mas do começo ao fim tudo passa pela sua edição como produtor. Só isso pode definir como será o disco, pois em música as possibilidades são sempre infinitas.

URBe  Quem escreveu os arranjos de cordas e metais? Tendo formação erudita, sente-se a vontade para isso?

Lucas Santtana – Com exceção do arranjo de “O deus que davasta mas também cura”, magistralmente escrito pelo Maestro Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz , o de “Vamos andar pela cidade”, escrito pelo Guizado e o de”Ela é Belém”, escrito pelo Gilberto Monte, todos os outros não passam por uma formação erudita, mas por uma maneira musical de usar sampler.

Quando eu uso sampler não me preocupo apenas se ele está casando com o beat da bateria. Penso na sua textura musical, na melodia, na harmonia, enfim no que aquele sampler vai somar na música, que “onda” ele vai propocionar sonoramente. O de “Músico” eu fiz a 4 mãos com o Rica Amabis. O de “É sempre bom se lembrar fiz a 4 mãos com o Gui Amabis. Os metais de “Se pá ska S.P” fiz sozinho. Os de “Jogos Madrugais” fiz a quatro mãos com o Gilberto Monte.

Mas mesmo a de “Ela é Belém” por exemplo, eu sentei com o Gilberto Monte e conversei bastante sobre qual o caminho a seguir, não largo na mão e digo “faça ai um arranjo de cordas”. Mostro referências, converso sobre a instrumentação, etc. tem toda uma direção nesse sentido. A mesma coisa rolou com o Letieres no café lá da Fnac em São Paulo. Ficamos duas horas conversando sobre o arranjo de “Deus…”. Isso econimiza tempo e trabalho, entende? O cara já cai para dentro sabendo qual o caminho proposto, e em cima dele, coloca todo o seu talento e criatividade. A coisa mais chata do mundo é você se dedicar com afinco a uma coisa e depois a pessoa dizer que não é nada daquilo, que é outra coisa… putz!

URBe  Como foi a relação de produção com o Chico Neves? Você viajou bastante pra gravar coisas e se envolve muito no processo. Qual o papel dele nisso tudo?

Lucas Santtana – No meu primeiro disco o papel do Chico Neves foi quase que total. Ele me ensinou a usar o estúdio com um instrumento musical e, como bom mineiro, ele tem as camadas e texturas musicais no sangue. No “Sem Nostagia” ele também foi fundamental na faixa “Who can say which way”, ele que timbrou aquela faixa, ela já foi para a mixagem pronta.

Mas nesse disco ele apenas gravou os instrumentos. Digo isso sem nenhuma culpa de estar sendo desmerecedor, mas de fato nesse disco eu acabei carregando tudo nas costas mesmo. E foi bom para mim, me fez assumir meu lado produtor. Função que sempre fiz nos meus discos mas que tinha uma certa frescura em assumir, já que eu também era o autor das músicas e o cantor. Como me disse uma vez o Arto Lindsay, “o ‘Sem Nostalgia’ você produziu junto com vários produtores, sendo que nenhum deles conhecia as outras músicas do disco. Então, se ele soa de maneira uniforme é porque você produziu o disco mesmo.”

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URBe – A impressão que dá é que o disco é bastante empurrado pelo baixo e bateria, ocupando papel central em todas as faixas, em torno dos quais outros elementos pousam como camadas. Ou isso pode ter a ver com ouvir de fone?

Lucas Santtana – Pode ter. Essa parada de baixo e bateria é uma escola jamaicana da qual sou entusiasta, você sabe. Mas nesse disco eu até segurei a bateria em alguns momentos, justamente para não encobrir certas camadas. Por exemplo em “É sempre bom se lembrar”. Falei para o Buguinha pensar no Ringo Star na mixagem, da bateria no refrão não entrar alta e rasgando, mas entrar como aquelas baterias dos Beatles, que tocam para a música como um todo e não apenas para o ritmo.

URBe  Várias das músicas terminam em partes instrumentais, com pegada de pista, quase uma jam. Dentro desse disco parece existir um outro, de remixes, doido pra sair lá de dentro. Em alguns casos parece questão apenas de cortar os loops e subir BPMs. Tem planos para isso? Você sempre lança remixes das suas músicas, oferecendo as faixas abertas na sua página para quem quiser remixar.

Lucas Santtana – Pois é , você me falou isso outro dia. Concordo totalmente, penso também num disco de remixes com faixas bem pista e outras bem space (você e o Chico Dub sempre usam uma palavra em inglês para definir isso, mas essas palavras inglesas sempre demoram um pouco para entrar no meu vocabulário) [N.E. – na verdade, tento evitar ao máximo termos em inglês]. Lembro a primeira vez que ouvi a palabra blog. demorei alguns dias para assimilar, hahahaha! Ou então a mesma música remixada para a pista e para o space, sem ritmo algum (pensei isso agora). Vou começar a pensar em nomes para isso. Mas vou esperar o disco sair na Europa, em setembro.

Vai sair daqui há dois meses um disco de remixes do “Sem Nostalgia”, de brasileiros e gringos. Porra, bicho, tem cada remix foda! O Lewis Robinson, dono do meu selo Europeu fez uma puta curadoria. Quero que ele participe também da curadoria do próximo disco de remixes. É uma maneira de juntar músicos daqui e lá de fora sabe? mostrar que todo mundo tá mandando em alto nível.

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URBe – No caso de “Ela É Belém”, nem precisaria, né. Como você decidiu pelo formato dessa música, alternando entre arranjos etéreos e partes digitais?

Lucas Santtana – Pensei no Siba, naquelas músicas que ele já fazia no Mestre Ambrósio, que alterna um canto quase declamatório com rachadas de energia e ritmo. Conversei isso com o Gilberto Monte, passei uma referencia de beat para a música e um sampler do Waldo Squash e disse que a orquestração deveria ser bem cinematográfica, como as trilhas do “Harry Potter”, que nunca cansei de ver com meu filho. Lamentamos muito o fim da série, adoramos “Harry Potter” e todo aquele mundo mágico. Desde “ET” nunca mais tinha me emocionado com filmes de efeitos especiais. “Harry Potter” me fez lembrar daquela bicicleta do “ET”, voando em frente da lua quando eu tinha 10 anos. Aquilo só existia no cinema e graças aos efeitos especiais. No filme “A invenção de Hugo Cabret” fica bem claro que cinema, efeitos especiais e magia são quase a mesma coisa e co-existem desde o nascimento da sétima arte. O cinema é uma arte que nasce da tecnologia. E acho que “Harry Potter” juntou tudo isso. Até porque a história fala sobre uma escola de magia. Quando fui tocar ano passado em Londres, andava na rua e só me lembrava do Josué e do Harry Potter o tempo todo.

URBe – Conta a história de “O Paladino e seu Cavalo Altar”. É uma versão de uma banda pouco ou nada conhecida de Londres. Como se deu isso? Como eles receberam a ideia? Ouviram a sua versão?

Lucas Santtana – Ouvi essa música aqui mesmo no URBe. Adorei de cara. Adoro quando bandas de rock colocam referências africanas em suas músicas. Geralmente isso se dá através de guitarrinhas no estilo africano, como já aconteceu no Talking Heads. Naquela segunda música do disco do Metronomy, “The end of you too”, isso vai as últimas consequências. Sinto uma certa vingança histórica nisso, entendeu? No bom sentido, claro!

Pois então, fiquei tão amarradão nessa música do My Tiger My Timing que resolvi fazer uma versão em português. Fiz a letra baseada no roteiro do Donkey Kong, ou seja, o cara passa por muitas dificuldades para conseguir a chave, libertar a mocinha da prisão e conseguir o seu coração. Antes ela se chamava “São Joguinho”, foi a Anna Dantes que deu esse nome. Porque ela parece também uma oração, no estilo do “Meu Glorioso São Cirstovão” do Gil e Jorge. Mas depois do show de lançamento do “Sem Nostalgia” no Open Air no Rio, um cara me encontrou no Baixo Gávea e falou “adorei aquela música nova do paladino e seu cavalo altar”. Ai não tive dúvida que tinha que mudar o nome. Pô, o cara ouviu uma vez e aquela frase ficou na cabeça dele? Como assim? Hahahaha!

Mandei a faixa antes de mixar para a Ann Vicent, vocalista, e pedi autorização para usar no disco. Eles se amarraram na versão.

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URBe – Mesmo as baladas “É Sempre Bom Se Lembrar” e “Para Onde Irá Esta Noite”, mais acessíveis, não são construções estritamente pop. Até que ponto você acredita que esse apuro estético e sofisticação na produção e arranjos te afasta de um público mais comercial? Tem como solucionar isso?

Lucas Santtana – Excelente pergunta. Quando terminei de aprontar exatamente essas duas músicas para a mixagem pensei, “putz, isso támuito xarope!”, hahahaha! Vou sujar mais um pouco, hahahaha!

Quando levamos exatamente essas duas músicas para tentar tocar numa rádio FM de grande alcance o cara disse “isso é muito sofisticado para tocar aqui”. Claro que se a gente tivesse levado uma mala de dinheiro junto a coisa seria bem diferente né? Eles podiam até não gostar, mas iam tocar.

Cara, infelizmente o grande público não sabe, mas o mundo da industria fonográfica é igual ao “Tropa de Elite 2″. Pensa bem no Capitão Nascimento falando essa frase ” O sistema é foda, eles podiam até não gostar companheiro, mas iam ter que tocar”, hahahaha! Alguém tinha que fazer um filme igual ao “Tropa de Elite” só que com a indústria fonográfica, ECAD. Nem precisa ser longa metragem de ficção, pode ser documentário mesmo.

Enfim, no fundo eu curto muito esse “apuro estético e sofisticação na produção” , é uma das coisas que me fazem ser músico e ser feliz fazendo o que eu faço. O cara da rádio pensa em grana, e não culpo ele por isso. Provavelmente ele também fica feliz quando chega uma mala cheia de dinheiro lá. Então cada um tem que ser honesto com o que quer da vida.

Agora, eu discordo completamente dessa sua maneira de pensar, se é que é a sua maneira de pensar ou apenas uma pergunta. Eu acho que esses caras da indústria incutiram esse pensamento do que é ou não popular. Eles usaram o poder que tem para incutir e educar de maneira equivocada a população e os ouvintes do que seja popular ou sofisticado.

A mesma coisa se deu na indústria das celebridades. Inventaram o termo “pessoa pública”. Como assim? Qualquer pessoa é pública, é so sair na rua. Mas incutindo na imprensa esse termo “pessoa pública”, as revistas de fofoca justificam poder tirar foto de pessoas famosas e publicar na sua revista. Ou seja, a revista ganha dinheiro com uma foto sua e não te pede permissão para isso porque você é uma “pessoa pública”. A quem interessa isso?

Michael Jackson sempre foi sofisticado, os arranjos e produção do Quincy Jones tem toneladas de “apuro estético e sofisticação na produção”. Os arranjos do Rildo Hora nos discos do Zeca Pagodinho idem! As músicas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Jobim são populares faz tempo e são muito mais sofisticadas que as minhas ou as da Céu ou do Curumin ou do Wado. E mesmo sendo sofisticadas elas se tornaram populares. A diferença é apenas essa: a gravadora chega com uma mala de dinheiro e a música toca mil vezes no rádio, vira popular. O Michael Jackson então nem se fala, não eram malas, eram caminhões, hahahaha! É a industria escancarando o seu sorisso.

Essa deseducação do ouvido médio no Brasil se deu exatamente por esses programadores de rádio que só pensam em ganhar dinheiro, por esses diretores artísticos completamente ignorantes que levantaram essa bola do que é ou não popular. Porque só a eles interessa a consolidação desse pensamento. Sofisticação e popularidade sempre andaram juntas, ou você acha que aquelas orquestrações por trás da voz de Frank Sinatra são desprovidas de “apuro estético e sofisticação na produção”.

O problema é que a maioria das cantoras de MPB no Brasil se adequaram a esse sistema e continuam fazendo discos cuja produção é feita a base de Lexotan, para não “ferir” , nem exigir demais dos ouvidos da população. Te faço uma pergunta: você acha que pode haver alguma relação entre o fato da indústria farmaceutica vender remédios tarja preta como Frontal e Rivotril em larga escala para a população e as pessoas estarem com medo de encarar filmes tristes e pesados no cinema?

Finalizando a história, essas duas músicas que você citou do meu disco são as mais populares, aquelas que rapidamente se destacaram no disco, que percebi pelos comentários que se tornaram quase unanimidade. Se essas duas músicas tocassem no rádio exaustivamente não tenho dúvidas que seriam um sucesso popular. Curioso né?

URBeVocê acha que pode ter mais facilidade para encontrar público no exterior? os discos tem cada vez mais repercutido por lá, rolado shows. como anda isso?

Lucas Santtana – Eu tenho encontrado público em todo lugar, não vejo diferença entre lá fora e aqui. O meu pacto é com o tempo desde o primeiro disco, nunca tive essa ilusão de popularidade. Não estou dizendo com isso que não quero tocar para um público maior, claro que quero, mas isso tem que acontecer se tiver que acontecer pois como disse acima, minha geração não usa as armas da indústria, nós somos a geração X, lembra? Vivemos nas entrelinhas. Para nós, o processo é um pouco mais lento, mas também mais sólido. Quantos artistas que foram grandes há 10 anos atrás já não tem mais tanta representatividade? Essa queda deve ser dolorosa, né? Melhor ir devagar e sempre.

No exterior por exemplo, já tenho 5 discos e só agora eles estão descobrindo a minha música. 12 anos depois do meu primeiro disco. Demorou, né? Mas é isso mesmo, acontece quando tem que acontecer, e nós vamos lá agora fazer 12 shows em 6 países, dar entrevista para o editor do jornal Le Monde, que está pirado com os discos. Tocar num programa de rádio ao vivo para 1 milhão de ouvintes na RadioFrance Inter. Volto lá sem a menor espectatica novamente. Vou lá fazer a mesma coisa que sempre fiz aqui ao longo desses 12 anos, música. Pode ter 50 pessoas numa cidade, 1.000 em outra, o show vai ser o mesmo, vamos entrar para nos divertir, porque essa é a nossa cachaça. Isso é urgente em nossas vidas, precisamos fazer isso para que a vida tenha algum propósito. E isso nos faz feliz, a vida pode ser bem simples, na verdade.

Lá fora está surpreedente mesmo, não esperavamos esse retorno tão forte. Não esperavamos ser o disco estrangeiro de 2011 no jornal Liberation, o jornal mais “cultural” da França. Nem ser o sexto melhor disco de 2011 na Le Inrockuptibles. Não esperavamos tocar no programa do Gilles Peterson na BBC1 para uma audiência de 20 mihões de ouvintes.

Isso na imprensa brasileira passa quase batido, é impressionante. Pensa bem, uma revista como essa , que recebe centenas e centenas de discos todo ano, de todos os estilos musicas, de todas as partes do mundo, e de artistas grandes da indústria musical mundial. O jornal Liberation idem. Então você se destacar nesse mundaréu de discos é algo notável, ou deveria ser, mas aqui passa meio batido, hahahaha! Paciência. É como eu repito todo dia no Facebook: “som sempre!”

URBe As letras nesse disco estão mais herméticas, ao mesmo tempo que um formato de crônica, histórias. Quais tem sido os comentários a respeito disso?

Lucas Santtana – Tenho recebido emails e mensagens de pessoas contando que o disco ajudou muito elas a entender processos pessoais de relacionamento que estão vivendo agora ou já viveram, e as letras do disco ajudaram a ter essa compreensão. Clarearam as idéias. As primeiras mensagens dessas até me assustaram, porque pensei, “pô, o que é que eu vou responder?”.

Como letrista (que eu não sou), acho que esse disco é um passo a frente para mim. Não acho elas nada herméticas, pelo contrário. Não compactuo com esse desejo de tornar o mundo mais medíocre. Não educo meu filho assim. E os filhos dos outros que passam por perto também não educo assim.

Fico impresionado como o Josué e os colegas dele da escola Sá Pereira tem uma cultura geral aos 9 anos muito superior a nossa nessa idade. Pena que isso se dá apenas em poucas escolas particulares, mas ao mesmo tempo, se isso acontece lá é porque pode acontecer em qualquer escola, é só implementar. Isso vale para o resto também, ainda acredito na inteligência das pessoas, na sensibilidade delas, nos seus sentimentos. E a minha música vem disso e vai para isso.

Som sempre!

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