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Dízima periódica

Written by , Posted in Urbanidades

24/02/2003

Traficantes param o Rio de Janeiro. Não, espera. Essa frase já foi usada ano passado. Apagar, começar de novo. A cidade acordou refém dos bandidos. Não, não, isso também soa repetitivo. Volta tudo. Quer saber? Não precisa de introdução, é impossível escrever qualquer coisa que não pareça redundante. Todo mundo sabe qual é o assunto, não precisa nem dizer. Esta rotina de medo, traficantes desafiando a polícia e todo o resto, o pânico espalhado pela cidade, está se tornando uma equação comum, uma dízima (seria um dízimo?) cada vez mais periódica. Dez divididos por três. 3,3333333333333…

Hoje aconteceu de novo, alguém duvida que vá acontecer outra vez? Os traficantes perderam o respeito pela lei. Quer dizer, perderam de vez, porque nunca tiveram muito mesmo. Vai longe o tempo em que a bandidagem agia somente de noite, protegido pela escuridão. Tanto em setembro de 2002 quanto hoje, está tudo acontecendo à luz do dia. Até agora não ouvi qualquer coisa que pudesse passar a vaga idéia de que a situação será controlada. O prefeito e o Ministro da Justiça acusam Fernandinho Beira-Mar (preso num presídio de segurança máxima!) de ter orquestrado toda a baderna e defendem sua retirada do Rio de Janeiro. Ah, tá. Então eu tenho que acreditar que transferir o cara que comandou uma operação deste tamanho, de dentro de Bangu I, via celular, para um presídio no Acre é a solução para esse caos? E qual exatamente vai ser a diferença, senhores ministro e prefeito, no Acre não há rede de telefonia celular? Não consigo entender de que maneira a “proximidade dos centros urbanos”, como definiu César Maia, possa estar relacionada com essa zorra que tomou conta da cidade hoje mais uma vez. Se o cara está preso, independente de onde esteja, ele supostamente está sob a tutela do Estado e portanto anulado para o crime, ora pois.

A governadora garantiu que está tudo sob controle. Ela já sabia dos planos dos traficantes desde a meia-noite de domingo e botou todo o efetivo da PM nas ruas. Rosinha fez essa afirmação por volta de uma da tarde. As 14h30 os plantões dos jornais davam conta que mais ônibus acabavam de ser incendiados em Niterói (tá sobrando até para a vizinhança) e que policiais trocavam tiros com bandidos no Méier. Até agora foram incendiados mais de 15 ônibus e nove carros, além do comércio ter baixado as portas em vários lugares. Tudo sob controle, como se pode perceber. Não sei o que me intriga mais: se mesmo com o Governo do Estado sabendo dos planos com antecedência as coisas terem tomado essas proporções ou se, com todo o efetivo na rua, a PM não estar conseguindo dominar a situação.

É inacreditável como a polícia desperdiça seu poder. Por incrível que pareça, a presença ostensiva de policiais ainda inibe crimes. Só que eles só estão nos lugares depois dos crimes. É revoltante passar em frente à cena de um crime e ver o carro da polícia fazendo plantão no dia seguinte. Tem que estar presente o tempo todo, treinada e preparada para patrulhar a cidade. No dia seguinte é tarde demais. Não sou muito familiarizado com os conceitos que determinam o que é e o que não é uma guerra civil. Desconfio que no momento em que todo o efetivo da polícia não consegue controlar um grupo grande de civis armados, sendo necessário buscar auxílio das forças armadas, determine alguma coisa. Pois bem, só está faltando o exército. Preparem-se, a guerra vem aí. E não é no oriente médio.

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