sexta-feira

24

outubro 2008

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Carência

Written by , Posted in Música


Sonny Rollins
fotinho fora de foco, feita lááá de longe
URBe Fotos

Para muito além da música, é impressionante como um evento cultural (como o Tim Fest) pode falar tanto de uma cidade (como o Rio) e do estado das coisas.

Um dos dias mais estranhos desse último ano em Londres foi quando descobri, por acaso e apenas no dia seguinte, que havia ocorrido uma etapa do Red Bull Air Race na cidade. No dia do evento, circulei bastante e não notei nada de diferente. Nenhum tumulto, nada de confusão. A corrida só aconteceu para quem esteve interessado em acompanhar.

Quando esse evento (ou outro do mesmo tamanho, ou até menor) acontece no Rio, a cidade pára. Não interessa se você não se importa com corrida de aviões, você está fadado a passar o domingo preso em engarrafamentos e outras alegrias do gênero.

O motivo é muito claro, tem a ver com a carência (não só) do Rio por grandes eventos minimamente bem produzidos — além, óbvio, da infra-estrutura precária. Lembrei dessa história ontem, durante o show do Sonny Rollins.

É essa carência que desperta a quantidade gigante de reclamações em relação ao evento, da produção a escalação. São tão raras as chances de se ver algo interessante que faz disparar o nível de exigência quando elas aparecem, no que em outras circunstâncias deveria ser apenas um show.

Se isso explica os ânimos exaltados em relação ao Tim Fest 2008, não justifica erros como o PA magrelo, sem graves e estalando, os atrasos e o desrespeito com as leis.

Uma das principais reclamações é em relação ao preço dos ingressos, absurdos de caro, ainda mais se comparados com os 100 reais cobrados pelo Planeta Terra pra ver todos os shows da escalação oferecida por eles.

A julgar pelos comentários que se ouvia antes do show, Sonny Rollins deve ser um dos maiores nomes da música no Brasil. A quantidade de vezes que eu ouvi “cara, não perderia esse show por nada, ele é incrível” (o adjetivo da vez, incrível, normalmente é dito com uma expressão meio blasé) faz pensar porque o show do sujeito não é uma data oficial do calendário do Rio.

Carioca é um bicho esquisito. Qual o problema de dizer que estava indo lá atrás da lenda, para conhecer mesmo? Acredito até que essa é uma das funções do evento, divulgar e criar público para a boa música. Não sou entendido em jazz (o que eu conheço um pouco mais e gosto é o samba-jazz brasileiro) e não vejo problema em admitir que se ouvi três músicas do Rollins na vida, foi muito.

O show foi OK, muito prejudicado pela tradicional má qualidade de som (fritando sem parar), por uma iluminação multi-colorida mais apropriada ao Cirque du Soléil e, principalmente, pelo tamanho do lugar. Será sempre um mistério incompreesível porque investem tanto dinheiro em cenografia em vez de equipamentos (e técnicos!) de som de qualidade, num evento de MÚSICA.

Certamente a intenção ao colocar o Sonny Rollins no maior dos palcos foi a melhor possível. Acontece que um show de jazz não cabe num lugar daqueles. Como alguém comentou, “jazz não combina com PA”. Ainda mais com os BPM lentos das músicas tocadas. Perdido, lá no fundo da tenda, entre o vai e vêm das pesssoas, a reação involuntária era a dispersão.

Nas mesas em volta a fumaça subia, sem pudor, apesar do aviso de “proibido fumar” e de uma lei em vigor no Estado. Perguntei ao segurança a respeito disso e a conversa foi curiosa.

Segundo ele, a “orientação era pra não incomodar quem estivesse fumando”. Ué, mas não é uma lei? “Pra você ver…”. Num momento em que se fala tanto em mudanças, é assustador ouvir um troço desses. Mudanças, sim. Lá no quintal dos outros, né.

Na Casa da Matriz, onde a fiscalização está batendo forte, contam que a orientação aos seguranças é bem outra. Na marca do pênalti pra perder a licença, a Casa está cumprindo a lei bonitinho. Como no exterior, além da educação, é a pena que faz a lei ser seguida. A produção do Tim Fest talvez não esteja preocupada com a fiscalização.

Como ia dizendo, um simples evento de música pode falar muito de uma cidade e sua sociedade. Vai vendo.

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4 Comments

  1. Joca Vidal
  2. totó

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