quarta-feira

30

julho 2008

0

COMMENTS

Brit Doc 08

Written by , Posted in Uncategorized

A passagem pelo festival Brit Doc 08, em Oxford, rendeu um e-mail com um relato para os amigos interessados no assunto.

A mensagem acabou republicada no DocBlog, espaço totalmente dedicado aos documentários e editado pelo Carlos Alberto Mattos, no Globo On Line.

—-

BritDoc: nem tudo é pra levar a sério

Bruno Natal, esse documentarista e docblogófilo que está em Londres, enviou um e-mail para os amigos compartilhando um pouco do que viu no BritDoc Festival. Por julgar de interesse mais geral, e com sua autorização, reproduzo aqui (o título do post é meu e a foto é da divulgação do BritDoc):

Na semana passada passei três dias em Oxford, no BritDoc Festival. É um festival de indústria, cheio de palestras e alguns poucos filmes. Foi uma experiência interessante.

Acabei indo meio sem planejar. Era caro para participar, umas 350 libras se não me engano, mas eles convidam alguns estudantes, baseados não sei exatamente no quê, porque eu mesmo não me inscrevi. Porém, como tinha mandado o Dub Echoes (que dessa vez não entrou), eles acabaram me convidando também. Do meu mestrado, fomos eu e mais duas pessoas.

Só assisti a três filmes, um deles Man on Wire, que foi simplesmente uma das melhores coisas que já vi em documentário. Lindo, lindo, não deixem de ver quando sair.

O foco do festival são as chamadas pitching sessions, onde diretores/produtores apresentam seus projetos para um painel, em busca de financiamento. Formado por 12 pessoas, o painel tinha os comissioning editors de diversos lugares: BBC, Channel 4, PBS, Independent Film Channel, Sundance Channel, emissoras do Japão, Austrália e franco-alemã.

Havia uns dois ou três projetos realmente bons. Quer dizer, tinha coisa legal, mas a grande maioria era regular ou até mesmo ruim. Bom, bom mesmo, de você olhar e falar “esse cara é um gênio”, só teve um.

É tão complicado de explicar que nem sei se consigo. É de um diretor chamado Joshua Oppenheimer e chama-se Freeman: When Killers Make Movies. Já está quase todo filmado, mostraram um trailer bem bacana. O filme é sobre dois assassinos contratados pelo governo da Indonésia para liderar um dos muitos esquadrões da morte em Sumatra, que perseguiam os comunistas nos anos 60. Hoje em dia os sujeitos continuam soltos e são tratados como heróis em alguns lugares.

O lance é que, antes de se tornarem assassinos, os dois camaradas eram cambistas de ingressos de cinema e adoradores do cinema dos EUA. Quando se tornaram assassinos, a dupla começou a executar suas vítimas inspirados nos filmes a que assistiam. Para realizar o documentário, o diretor está reconstituindo os crimes, com os dois assassinos como atores, co-diretores e co-roteiristas, interpretando tanto eles mesmos quanto as vítimas, em cenários que lembram os filmes que inspiraram as matanças descritas.

Segundo o diretor, essa foi a única maneira encontrada para confrontá-los em relação ao que fizeram. Os sujeitos acreditam que viraram atores de cinema! Mas vão acabar é em cana, pelo que o diretor disse.

É uma produção grande mesmo, algo como Gondry em Be Kind Rewind encontra Kiarostami em Close Up. Muito sofisticado e arriscado.

O grande destaque do painel foi a representante do Sundance Institute, Cara Mertes. Ela não dava bola fora e só fez comentários interessantes. Deu muita vontade de tentar entrar em uma dessas oficinas do Sundance, para desenvolver projetos, etc, porque se o nível for esse, deve ser classe. Fiquei muito bem impressionado.

Fora isso, apareceram alguns projetos para filmar no Rio. Quase todos sobre violência. Todos com a abordagem de sempre, de explorar a desgraça sem apresentar soluções. Triste. A representante do Sundance salvou meu dia, quando foi a única a fazer esse tipo de observação.

Entre os projetos de terra brasilis, estava Art Is Garbage, de João Jardim e Lucy Walker. Contando a história do projeto do artista plástico Vik Muniz no lixão de Gramacho, o projeto teve recepção fria. O representante da americana PBS chegou a questionar se era tudo uma farsa, visto que para ele, Vik Muniz, o artista apresentado como “conhecido mundialmente”, sequer existia. Santa ignorância.

Baseado numa cena do trailer que mostra o leilão de uma obra de arte feita por um participante do projeto por 28 mil libras, um dos membros do painel perguntou se ao vender a arte produzida pelos catadores do lixão, não se estaria alterando a realidade daquelas pessoas. Pergunta boba. É claro que está, e para o melhor. Porém, parece que não há mesmo interesse em abordagens positivas sobre questões sociais do Brasil. Que sejamos miseráveis pra sempre, parece ser o recado.

Também pareceu uma unanimidade no painel a espera por um bom projeto sobre a ascensão evangélica na América Latina. Imediatamente pensei num filme sobre o Edir Macedo, mas, sinceramente, tenho receio de me meter nisso.

O que torna a ida a esse tipo de festival muito importante, como sempre falam por aqui, é o networking, o bom e velho “fazer contatos”. Nesse aspecto, achei bem pouco produtivo. Primeiro porque as pessoas que interessam (produtores e financiadores) não estão abertas para papo. Mas também, pudera, coitados deles se fossem conversar com todo mundo.

E segundo porque, como num certo lugar, ficou claro que é uma panelinha bem fechada. Absolutamente todos os projetos que estavam sendo apresentados (escolhidos previamente por uma inscrição no começo do ano) já eram conhecidos de todos do painel. A maior parte das respostas era “vamos continuar conversando” ou “já falamos sobre isso anteriormente e não é bem a nossa praia”.

Ou seja, o troço todo é mais um espetáculo do que pra valer mesmo. Todos já se conheciam, sabiam dos projetos, então não dá pra entender direito pra que serve a coisa toda. Fora a puxação de saco e tapinha nas costas… Joguinho difícil de jogar.

Voltando ao festival, o tema desse ano era humor nos documentários. Entres os palestrantes, estava Larry Charles, roteirista do Seinfeld e diretor do Borat, da série Curb Your Enthusiasm e do doc ainda inédito Religulous.

Teve um painel chamado “Are documentaries too serious?” (acho que ganhou a tese de que não, não são, do que eu discordo), mas o Larry falou no “You cannot be serious”, que analisava o papel do humor nos docs. E teve também uma palestra só dele, com uma boa meia-hora de trechos do doc de religião, bem divertido.

O áudio dessas e de outras palestras estão no saite do festival, caso alguém se interesse.

Pra mim, essas sessões foram muito boas, porque estou preparando o projeto de um doc no único formato que tem se provado comercialmente viável: com apresentador, roteirinho redondo e humor. Vamos ver como é que anda. Depois conto os detalhes, mas foi muito bom ter tido essas palestras pra iluminar o assunto.

Logo no começo do festival também teve um workshop falando de funding trailers (peças de venda) que foi bem informativo. Não acredito que tenha fórmula para essas coisas, mas é sempre bom conhecer o formato melhor. O mais divertido foi notar que, pelas tais regras, o trailer do Dub Echoes estaria totalmente “errado”: é clipado, com trilha, usa títulos, não tem nenhuma cena inteira… Hahaha! E foi justamente o trailer que levou o filme longe, consolidando as palavras de um grande mestre da edição, “tem regra não, lesque”.

De qualquer jeito, a palestrante tem um saite com algumas infos interessantes.
E eu ganhei uma consulta grátis com ela, por ter sido a pessoa vinda de mais longe!

Então é isso.

Anúncios

Deixe uma resposta

Deixe uma resposta

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: