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sexta-feira

11

setembro 2015

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Transcultura #172: Carta Psiconáutica // Nao

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Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo. Esse foi a derradeira edição, encerrando um ciclo de 5 anos da coluna. Foi demais!

De Mente Aberta
Da sálvia ao guaraná, passando pela cannabis e pela coca, elas são catalogadas em obra do antropólogo Pedro Luz
por Bruno Natal

Antropólogo e etnobotânico, Pedro Luz é uma figura respeitada por seus extensos conhecimentos. Foi por isso que um grupo de 50 amigos e fãs dos seus relatos, incluindo diversos nomes do mundo das artes como Marcos Palmeira, Estevão Ciavatta e Nina Becker, realizaram uma campanha de financiamento coletivo para que o autor pudesse ter tranquilidade para escrever “Carta psiconáutica” (Editora Dantes). O recém-lançado livro cataloga e apresenta plantas psicoativas, cobrindo desde os seus aspectos botânicos e micológicos até seus efeitos físicos, mentais, usos medicinais e impacto cultural ao longo da História.

Folheando as páginas se aprende sobre peiote, sálvia, beladona, ayahuasca, cannabis, coca, papoula, assim como guaraná, cola e erva-de-gato, Apesar de conter relatos detalhados de psiconautas (aqueles que usam estados alterados da mente para estudá-la), o livro está longe de ser uma espécie de “manual do doidão” ou “guia prático de viagens psicodélicas”. É, sim, um rico registro dessas plantas, tanto do ponto de vista histórico quanto do cultural, incluindo seus usos psicoativos.

— Pedro Luz é um cientista que de fato experimenta as plantas e conhece o efeito delas. E isso é raro, poucos experienciam dessa forma, a exemplo de Freud — diz o artista plástico Luiz Zerbini. — Ele fala sobre alguns povos que não existem mais e como fizeram uso dessas plantas, que ainda estão aí.

Outro colaborador do financiamento coletivo, o também artista plástico Ernesto Neto concorda.

— Uma vez eu passeei pelo Jardim Botânico com o Pedro e ele começou a falar das plantas de uma maneira tão profunda e tão poética que eu comecei a me sentir em um outro universo, como se estivesse penetrado em uma dimensão das plantas — afirma Neto.

Atualmente morando em Timbó, Santa Catarina, e pai de cinco filhos, Luz diz que mais importante que o próprio livro foi o aspecto coletivo que possibilitou a sua existência.

— O livro vem imbuído da sinergia da soma, da força de todas essas pessoas no produto. Isso por si só já é maravilhoso. O livro não é meu, o livro é de todo mundo que se uniu para permitir sua publicação. Espero ter honrado todos os pesquisadores e empíricos, todos os psiconautas, pajés, xamãs, todos esses povos que fazem uso dessa ferramenta incrível para a descoberta e o trabalho do mundo espiritual que são as plantas psicoativas

Na semana do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, da posse de substâncias ilícitas para consumo pessoal, a editora Anna Dantes acredita que é hora de seguir o epíteto de Burle Marx de que cultura é uma coisa só e integrar as plantas ao universo artístico e cultural.

— O fato de as plantas ainda serem proibidas é um tema em ebulição no Brasil. O livro abre a discussão sobre plantas ainda serem vistas como ameaças à sociedade. “Carta psiconáutica” reúne a noção de indivíduo utilizada por biólogos para plantas e a noção do sagrado nos espíritos das plantas pelos povos nativos. Acreditamos que se a cultura não realizar esse salto estaremos sempre abordando esse tema com dicotomia — diz Anna.

Na introdução, Luz explica como os movimentos nômades de populações coletoras-caçadoras, há milhares de anos, sempre em busca de comida para saciar sua dieta composta 70% de vegetais, provocou repetidos encontros com novas plantas psicoativas. Há quem credite a origem do pensamento mágico/religioso a esses encontros e experiências. Por isso, mesmo concordando que o tema seja controverso, Luz toma posição contra o preconceito em relação às plantas psicoativas.

— Quando você penetra nesse universo e conhece as pessoas que nos legaram essa tradição ao longo de milhares de anos, você vê que só coisa boa vem daí, só há energia positiva nisso — declara Luz. — Há pessoas que abusam e têm dependência, mas o vício dificilmente é de planta, e sim de compostos isolados. Essas plantas ajudam a curar pessoas com problema de adicção, então não se deve confundir o elogio às plantas psicoativas com outra coisa. O que faço no livro é uma homenagem às pessoas que têm esse conhecimento.

O livro é repleto de exemplos de usos culturais de plantas e fungos, e não apenas para expansão da mente. Durante a Idade Média na Itália, pupilas dilatadas, provocando um olhar estático e intoxicado, eram tidas como símbolo de beleza valorizado. Para atingir esse visual, as nobres damas pingavam gotas de extrato de beladona nos olhos. A prática terminou por batizar a planta. Cogumelos são desenhados nas paredes de cavernas desde a pré-História, além de terem servido de inspiração para o clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”.

Os dez capítulos, divididos entre diversos tipos de fungos, plantas estimulantes, narcóticas, calmantes, cactáceas e ayahuasca são ilustrados pela artista plástica Julia Debasse.

— Fiquei muito feliz com o resultado. É um livro importante por si só, mas para mim é um caso de família — diz Julia, que é sobrinha de Pedro Luz. — É uma colaboração fundamentada no amor. Não faria sentido essas ilustrações não serem entregues aos colaboradores do livro. Essas ilustrações precisam ficar junto com o livro.

Tchequirau

Produzida por A.K. Paul, irmão do cultuado Jai Paul, “So Good”, colaboração com a cantora inglesa Nao, é um r&b retro-futurista de cair o queixo.

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sexta-feira

11

setembro 2015

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Transcultura #171: Bruno Pernadas // Spotify Discover Weekly

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Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Com músicas de até oito minutos, disco de Bruno Pernadas tem sofisticadas experimentações
Em ‘How can we be joyful in a world full of knowledge’ português mescla folk, ambient, eletrônica, jazz, hip-hop
por Bruno Natal

Dica do jornalista Julio Adler, surfista e grande conhecedor das coisas de Portugal, “How can we be joyful in a world full of knowledge”, de Bruno Pernadas, não é um disco fácil. Tem arranjos elaborados, melodias sofisticadas e longas músicas, algumas passando dos oito minutos. Mesmo assim, é muito acessível em suas experimentações por folk, ambient, eletrônica, jazz, hip-hop, com suas atmosferas psicodélicas e chapadas. Pode-se fazer paralelos com Dirty Projectors, Stereolab ou Beach Boys, pode-se também enfileirar Creedence Clearwater Revival e trilhas sonoras.

São referências presentes no som de Pernadas, estudante de música clássica, jazz e composição em instituições como a Escola de Jazz do Hot Club de Lisboa e a Escola Superior de Música de Lisboa e autor de trilhas para teatro e cinema. Ele chegou a gravar um outro disco, de jazz, nunca distribuído, antes da estreia oficial, com “How can we…”, que merece atenção, mesmo tendo sido lançado ano passado. A escolha pelo inglês chama a atenção.

— Cresci ouvindo música cantada em inglês — explica ele. — Durante o processo de composição, no que diz respeito ao caráter melódico, imagino as músicas cantadas em inglês ou francês.

Com a ideia de fazer do disco um só momento musical, em vez de faixas isoladas, as músicas emendam-se umas nas outras. Entre as influências herdadas da coleção de vinis da irmã mais velha, Pernadas lista David Bowie, Genesis, Elis Regina, Gal Costa, Doors, Yes, Rádio Macau, Richie Havens, Antonio Variações, Beatles e Rolling Stones.

— Meu processo de composição é muito intuitivo, as ideias podem começar com uma frase melódica, um som, uma progressão harmônica, depois sigo o instinto — conta. — Ouço a música na cabeça e depois transponho para a notação musical ou, se tiver oportunidade, gravo uma demo para não me esquecer. Também acontece de ouvir um fantasma de um som, mas não conseguir de imediato perceber qual é, e por vezes esse processo pode ser demorado.

Sem sentir necessidade de contratar um produtor, Pernadas capitaneou as gravações, feitas entre 2012 e 2013. Contando com a participação de sete músicos (Afonso Cabral, Margarida Campelo, Francisca Cortesão, João Correia, Ricardo Ribeiro, José Maria e Sérgio Costa), “How can we…” foi lançado em plataformas digitais de streaming e também em CD, via Pataca Discos.

— Não queria fazer um disco de canções — resume.

Conhecedor da música brasileira, Pernadas diz que tem escutado Arthur Verocai, Novos Baianos, Elizeth Cardoso, Gal Costa e Cartola.

— Quando criança e adolescente, ouvia mais MPB. Já tive também a oportunidade de tocar com (o tecladista) Lafayette Coelho num show de que participei, no Circo Voador, com o Real Combo Lisbonense e a Orquestra Imperial. Gosto muito de uma música do Rodrigo Amarante que se chama “Evaporar”, que ele gravou com o Little Joy.

Ainda sem previsão de lançamento no Brasil, “How can we…” foi bem recebido em Portugal, gerando shows e resenhas positivas e levando Pernadas a se apresentar na edição portuguesa do festival Primavera Sound, em junho, no Porto.

Tchequirau

Há duas semanas o Spotify iniciou uma playlist semanal personalizada chamada Discovery Weekly. A cada semana dicas especialmente curadas para cada usuário geram ótimas descobertas. Tá viciante.

quinta-feira

10

setembro 2015

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Transcultura #170: Daniel Maloso

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Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Atração da festa Moo, o DJ mexicano Daniel Maloso mostra seus sons preferidos
Ele listou cinco músicas ‘com muito groove’, que deve tocar nesta sexta, na The Week
Por Bruno Natal

Hoje tem mais uma edição da Moo, dessa vez na The Week (Rua Sacadura Cabral, 135). Os DJs Diogo Reis e Badenov vão receber o mexicano Daniel Maloso (pra fazer um live) e o francês Ivan Smagghe. Pra explicar a atmosfera da noite, Maloso listou um top 5 da sua apresentação, será, segundo ele, “rústica, visceral, imperfeita, mas com muito groove”.

1) “Lo Mas” – Daniel Maloso – “Música nova com a qual abrirei meu set. É uma espécie de house punk com elementos ácidos de um Roland 303”.

2) “Clapman” – Daniel Maloso e Thomas Von Party – “Uma colaboração com meu amigo Thomas Von Party, gerente do selo Turbo e irmão de Tiga. É uma sátira ao herói da pista de dança”.

3) “Family stone” – Manueles – “Single do meu novo projeto Manueles, que é uma colaboração com meu irmão Felipe. Baixos inspirados em electro-funk com adições de guitarras espaciais e vozes “funky” melodiosas.

4) “No doy nada” (Live Acid Version) – Daniel Maloso – “Uma re-interpretação de uma das minhas músicas preferidas para tocar ao vivo.

5) “Coliseos” – Daniel Maloso – “Essa só saiu como bonus digital do EP “Hijos de Jose”. Música com vida forte no meio de synths monofásicos e vocais rítmicos e viscerais”.

quinta-feira

10

setembro 2015

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Transcultura #169: Zoeira // Tame Impala

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DJ Negralha, Marcelo D2, Aori e Marechal na Zoeira, em 1999

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Marco do hip-hop carioca no fim dos anos 1990, festa Zoeira ressurge, sábado, no La Paz
Edição especial acontece no mesmo bairro que ajudou a revitalizar, unindo DJs e MCs da nova e velha guarda
por Bruno Natal

Falar da festa Zoeira, catalisadora da cena de hip-hop carioca citando a letra do hino “Melô da Zoeira” (“Hip-hop Lapa Sábado Zoeira/ Levanta a poeira, não tô de bobeira/ Se quiser zoar, esse é o lugar/ Riachuelo 19, L.A.P.A.”) é um clichê inescapável. Tanto as rimas quanto o time envolvido nas batidas (Marcelo D2, Marechal e Aori, sobre bases dos DJs Babão e Negralha) resumem em poucas palavras os encontros na extinta Sinuca Palácio dos Arcos, a partir do fim dos anos 1990, que também foi cenário da foto da capa e do clipe de estreia do Planet Hemp.

— Eu fazia o festival SuperDemo, no Circo Voador, quando o Cesar Maia mandou fechar a casa. A Lapa ficou deserta — lembra Elza Cohen, idealizadora e produtora da festa, que volta amanhã, em edição especial, no La Paz — . — Após o SuperDemo virar selo da Sony, trabalhando na produção do disco “Usuário”, do Planet, e procurando locações para o clipe de “Legalize já”, encontrei a Sinuca com o D2. O lugar era muito interessante. Gravamos o clipe e na semana seguinte fui lá agendar a Zoeira.

Para marcar a volta, atrações clássicas, como os DJs Pachú, King Mack, Castro, Woo e o MC Aori juntam-se a crias, diretas e indiretas, como Stephan Peixoto, Marcão Baixada, Lil Mila e Nacho Garcia e Nicole Nandes. Dedicada à fotografia e morando em São Paulo, Elza fará retratos dos frequentadores para uma série.

A primeira Zoeira, em 1998, contou com o próprio D2, Kassin e BNegão nos toca-discos. A partir de uma nota convidando artistas para a festa publicada na seção Rio Fanzine, do GLOBO, principal veículo da cultura alternativa da cidade na época, chegaram os grafiteiros Binho, Fabio Ema, Eco, Akuma Crespo, Ment, Mackintal e grupos de break como GBCR e Atari Funkers. Ao reunir num só lugar uma cena que estava dispersa pelo Rio, a festa se consolidou como a casa do hip-hop.

— Conheci o MC Marechal numa loja comprando discos. Ele foi à Zoeira, pegou o mic e mandou um freestyle, de cabeça baixa e olhos fechados, todo tímido. Quando terminou, estava todo mundo vibrando — recorda Elza.

Daí em diante, todo sábado MCs como Black Alien e D2 e outros ainda desconhecidos, como Aori, De Leve, Shawlin, Dom Negrone e Mahal passaram a bater ponto ali. E a eles juntaram-se DJs como Castro e Pachú.

Praticamente todos os principais nomes do hip-hop nacional e algumas estrelas internacionais passaram por lá: Madlib, JRock, Eric Coleman, Negralha, Tamenpi, Babão, KLJay, Primo, Nuts, Zegon, Fleshbeck Crew. A festa, que seguiu na Sinuca até 2001, rendeu ainda uma coletânea para revista “Trip”, “Zoeira”, onde o hino foi lançado.

A missão agora, diz Elza, é encaixar a Zoeira — de volta à mesma Lapa que ajudou a revitalizar — no novo momento do hip-hop, que passou de underground a um dos estilos mais bem-sucedidos do planeta. Orgulhosa, ela ressalta que todos que participaram da festa e da coletânea continuam ativos.

— Aori está lançando EP, Marechal finaliza seu primeiro álbum, De Leve e Shawlin gravaram discos e fazem shows pelo Brasil, Pachú é um dos mais requisitados DJs do Rio, Castro toca com Black Alien e BNegão, João Woo e Nepal, do Apavoramento, também viraram DJs na Zoeira — lista Elza. — Tudo é um ciclo, mas a proposta de evolução da festa continua.

Tchequirau

Chegou o terceiro disco do Tame Impala. “Currents” é bem diferente dos outros, focado no synthpop dos anos 80 em vez do rock psicodélico dos anos 70, sem perder a personalidade da banda. Ouça “Eventually”.

quarta-feira

9

setembro 2015

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Transcultura #168: Os Ritmos Digitais // Marker Starling

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osritmosdigitais

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Marco da noite carioca do começo dos anos 2010, trio Os Ritmos Digitais prepara volta à pista
Os DJs Yugo, Millos Kaiser e Salim se reúnem, após três anos, em festa na Casa Daros, na próxima quinta
por Bruno Natal

Em maio de 2009, após o fim da marcante festa W (ou Dáblio, como era conhecida), três dos DJs residentes — os amigos Hugo Braga (Yugo), Millos Kaiser e Rafael Salim — resolveram continuar tocando. Nascia, então, o trio Os Ritmos Digitais, que se tornaria um dos mais ativos na noite carioca do começo dos anos 2010, chegando a ser uma das atrações do festival Back2Black em 2011.

Dissolvido no ano seguinte, após uma festa no Cais da Imperatriz, o grupo de DJs volta a se encontrar, após quase três anos, na próxima quinta-feira, numa festa com seu nome, na Casa Daros. Dessa vez, porém, seus integrantes tocarão, em princípio, separados, cada um à frente de uma identidade ou novo projeto: DJ Yugo, Selvagem (Millos) e Equipe Diabo Louro (Salim com Antônio Simas).

Das farofadas dos primeiros encontros, quando chegou a ser multado após uma agitada festa em um condomínio no Leblon, o trio foi aprofundando sua seleção musical, em direção a disco, r&b, krautrock, synthpop oitentista e ítalo, levando Os Ritmos Digitais a ser convidados a se apresentar em diversas festas, começando numa do blog “URBe” (editado por esse escriba) e evoluindo para festas como Discoland e Moist, além de produzir edições próprias com participações internacionais de DJs como o inglês Chris Todd (do Crazy P) e os escoces do Optimo.

— A Moo, Combo e Calzone eram as festas de que mais gostávamos na cidade e também as nossas principais influências — lembra Millos.

Apesar de citar as mesmas referências, Salim achava o clima das outras festas meio sério demais ou divertido demais e acreditava haver um espaço entre as duas coisas.

— Meu interesse maior era descobrir sons dançantes, independente de ritmo, gênero ou época. Se você realmente gosta de música dançante, não fica fazendo cara feia para as diferentes manifestações disso — diz ele.

Com o tempo, com as tarefas da vida, a coisa foi naturalmente desacelerando. Millos se mudou para São Paulo, virou editor da revista “Trip” e foi também repórter da “Folha de S.Paulo”. Salim concentrou-se no trabalho como fotógrafo e videomaker. Pouco tempo depois, Hugo, que naquela época também era editor de conteúdo do site de cultura independente “PartyBusters”, conhecido também por suas fotos da noite, mudou-se para Londres. Em 2012, o trio se dissolveu.

— Fizemos um set pro (site) “deepbeep” que foi um marco de fim, sem que soubéssemos — relembra Salim.

Logo começaram os novos projetos de cada um. Millos iniciou sua bem-sucedida empreitada com a dupla de DJs Selvagem (ao lado de Augusto Oliviani, o DJ Trepanado) e com a festa homônima que chegou a gerar uma mixtape para cultuada revista “Wax Poetics” e uma turnê pela Europa.

— Faz um ano que deixei o jornalismo e resolvi me dedicar apenas à Selvagem — explica Millos sobre a festa, que acontece em SP (duas vezes por mês) e no Rio (uma, a próxima é no dia 18 de julho, no Cais da Imperatriz).

Hugo chegou a produzir outras festas, como Yes We Chaka Khan e Gluck, e em 2012 se mudou para Londres para estudar engenharia de áudio e produção musical. Da capital inglesa, apresentou por dois anos o programa de rádio on-line “Super Nova”. De volta ao Rio, o retorno às pistas foi inevitável.

— Sempre quis ser DJ, desde criança, e quando voltei pro Rio me vi querendo tocar de novo. Meu objetivo hoje é trabalhar com áudio e produzir música. Quero começar uma festa nova ainda este ano — garante.

Salim continua fazendo frilas de foto e vídeo, mas tem dedicado seu tempo principalmente à pintura. Ainda assim, não abandonou as pistas e formou, com Simas, a equipe Diabo Louro.

— Durante alguns meses, chegamos a ter os domingos fixos na Comuna, que ainda contavam com Guerrinha e Diogo Reis. Não ia ninguém, mas era bem legal — admite ele. — Mas aos poucos estamos estruturando melhor o Diabo.

O reencontro surgiu a partir do convite do Mira!, restaurante da Casa Daros, a Hugo para participar da Countdown, série de eventos promovidos até o fechamento do museu, no fim do ano.

— Achei legal reunir todo mundo e chamar de Os Ritmos Digitais, nem que seja pela última vez, nem que seja um rito de passagem — diz Hugo

— Não sei se vamos tocar juntos na festa, mas isso poderia ser legal — completa Millos. — Vou tocar o que rola na Selvagem: músicas dançantes de todas as épocas e origens. E continuo não me levando muito a sério, algo que aprendi com Os Ritmos Digitais.

Tchequirau

Conheci o Marker Starling ouvindo a sensacional edição 50 da série DJ Kicks, desse vez mixada pelo DJ Koze, que incluiu “In Stride” no set. O disco “Rosy Maze” foi lançado esse ano e mantém o nível.

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