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quinta-feira

11

Maio 2017

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Cobertura: Coachella 2017, as bandas cresceram

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Esse ano a cobertura do Coachella (a sétima!) foi um pouco diferente dos outro anos. Em vez de relatar em tempo real no Instagram e Twitter do URBe, escrever uma crítica para algum veículo impresso, seguido por um longo relato aqui no blog, fui convidado pela Farm para cobrir ao vivo para o blog da marca carioca, o adoro! Farm, através do Stories da marca.

Também escrevi alguns posts antes do festival, outro com dicas para quem quer conhecer o evento e fiz cinco playlists com o melhor da escalação para Rádio Farm no Spotify (Creme, Hip Hop, Pop, Eletrônica e Festa).

Abaixo reproduzo o post pós-Coachella que escrevi pra eles.

Como complemento, de 2006 pra cá, a grande diferença esse ano foi a grande quantidade de shows assistidos nos palcos abertos e pouquíssimos nas tendas. Isso tanto tem a ver com uma mudança na pegada da curadoria do festival (as apostas normalmente feitas nas tendas mais longe do meu gosto pessoal), quanto pelo fato de uma geração inteira de bandas surgidas na segunda metade dos anos 2000 terem se consolidado, crescido e estarem agora nos espaços maiores. E tendo sido também a primeira vez no segundo final de semana, talvez pelo clima extremamente seco, o gramado estava bem castigado.

A imensidão musical do deserto – adoro! | FARM

O anúncio da escalação do Coachella é uma das mais aguardadas do calendário mundial de festivais. Ainda que seja impossível agradar todas as expectativas, sempre altíssima, todos os anos a lista de artistas está caprichadíssima, dando oportunidade de conferir o que algumas das mais promissoras novidades, e também nomes já estabelecidos, andam fazendo.

Não é sempre que se pode assistir num espaço de duas horas o Preservation Hall Jazz Band (grata surpresa!), o r&b modernista do Sampha, o rock psicodélico do King Gizzard & theLizard Wizard, a eletrônica ao vivo do Bonobo e seguir noite adentro conferindo Glass Animals, Jaguar Ma, Father John Misty, The xx e Radiohead – e tudo isso só no primeiro dia!

Com uma oferta tão grande do que assistir, é fácil bater o desespero de não poder conferir tudo. Normal. O que pode ser ainda pior é de fato tentar ver tudo. Ainda que em alguns casos valha a pena pular de um show pro outro, ver um pedacinho de um show aqui, outro ali, é muito mais importante conseguir abstrair do que está perdendo e focar noque está vendo. As vezes um show inesperado está tão bom que vale mais a pena conferir inteiro do que tentar correr pra ver o finalzinho daquela banda imperdível. Numa escalação dessas, conseguir decidir o que não ver é a verdadeira tarefa.

E assim, no segundo dia, após o o transe eletrônico do Floating Points, os shows do Car Seat Headrest e Chicano Batman foram substituídos por uma visita à instalação “Chrysalis” com projeção de 360 graus e uma volta na roda gigante, respectivamente. A obra de arte mais comentada esse ano foi “The Lamp Beside The Golden Door“, do brasileiro Gustavo Prado, uma torre de espelhos côncavos e convexos que gerava um efeito espetacular.

Sem problemas, porque logo na sequência o Thundercat veio sacudindo tudo com seu free jazz pop (pode isso?) enlouquecedor. Conhecido pelos muito remixes que tocam em quase todas as festas, o Mura Masa fez um ótimo show, bem dançante, logo antes do Bon Iver ninar a plateia no palco principal.

Nas tendas ao lado, os fãs de música eletrônica se dividiam entre idolatrar Nicolas Jaar e pular com o DJ Snake. No palco principal, Lady Gaga reuniu boa parte do público do festival pra um show que pareceu um tanto preocupado demais em agradar.

No último dia, com as energia já mais baixas e com a moleira frita do sol de 40 graus do deserto, as coisas fluíram mais devagar. O soul do Lee Fields (a caminho do Brasil) e o indie folk do Whitney sofreram com isso, já que havia pouca gente pra vê-los na hora em que tocaram.

No entardecer, Devendra Banhart (também com turnê marcada pelo Brasil) contou com o hermano Rodrigo Amarante no baixo, NAO conseguiu um dos coros maisaltos do festival com sua “Firefly” e Jack Garrat fez uma festa sozinho, tocando bateria, sintetizador, guitarra e cantando – as vezes tudo ao mesmo tempo – numa tenda.

Apontando pro final, Lorde serviu de abertura para a grande atração da noite, Kendrick Lamar. Com disco novo lançado dias antes, Kendrick mostrou porque é tido como o principal nome do rap atual, mostrando controle total do público através de suas letras poderosas.

Já era tarde da noite quando a fila de saída do estacionamento tomava mais de uma hora. Ninguém se importava. Todos riam de orelha a orelha, felizes com um dos mais divertidos finais de semana do ano. Como é todo ano.

Co-fundador e diretor criativo do Queremos! e WeDemand, Bruno Natalé documentarista e jornalista, com mestrado em Goldsmiths,University of London. Dirigiu e produziu filmes como “Dub Echoes”,sobre a influência do dub jamaicano no surgimento do hip hop eda música eletrônica, além de ter registrado alguns dos maiores artistas brasileiros, de Chico Buarque a JotaQuest. É consultor do canal Multishow e colabora no desenvolvimento de projetos, como o Prêmio da Música Brasileira. Escreveu por 5 anos uma coluna semanal sobre música e cultura digital no jornal O Globo e edita o blog URBe há 14anos.

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terça-feira

7

junho 2016

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Tapas, sol e concreto: Primavera Sound 2016

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fotos: @urbe
ilustrações: Ben Rubin (Upstate, New York) / @bwrubin

Finamente, Primavera. Após adiar por anos, fui conhecer o tão comentado festival espanhol. Fiz também uma cobertura para O Globo (dando uma geral no evento) e para o Ponto Eletrônico (contextualizando o festival entre seus pares) – e você pensando que isso aqui é só lazer).

As três resenhas são complementares, bem diferentes uma da outra,. Confira os textos “Porque é primavera” e “Primavera Sound: um festival de música”. Vou manter a introdução curta por aqui e cair nos comentários sobre os shows.

No Primavera Sound Barcelona não tem muito espaço para fru-fruzice. É show em cima de show, muitos palcos simultâneos, caminhadas gigantes, incluindo escadarias de respeito. O Parc del Fórum é um concreto só e, mesmo estando na beira da praia da Barceloneta, não é fotogênico.

Com certeza isso espanta aquela parte do púbico (cada vez maior, dependendo do festival) mais preocupada com o Instagram do que com as bandas e isso ajuda a assistir os shows. E quem quer passear, tem toda cidade e seus muitos bares de tapas pra curtir. O público é majoritariamente composto por trintões, a imensa maioria de homens.

Por outro lado, os shows começam e acabam tarde pra burro e a falta de espaço de convivência além da praça de alimentação tornam a experiência bastante cansativa. Afinal, deitar no cimento sujo não é exatamente convidativo.

Empiezó! #primaverasound #primaveraurbe

A photo posted by URBe (@urbe) on

Entre as 130 atrações, com destaque para o rock e para o pop, apresentaram-se o Radiohead, LCD Soundsystem Tame Impala, Brian Wilson, Sigur Rós, Beach House,The Last Shadow Puppets, LCD Soundsystem, PJ Harvey, Air, Beirut, Goat, Action Bronson, John Carpenter Alex G, Andy Shauf, Nao, Kamasi Washington, Orchestra Baobab, Mbongwana Star, Moses Sumney, Pantha Du Prince, Floating Points, Holly Herndon, DJ Koze e Moderat. Representando o Brasil, os grupos O Terno, Aldo The Band e Inky tocaram num dos palcos secundários, com público diminuto, porém atento.

Segundo a organização, o Primavera Sound reuniu 200 mil pessoas em cinco dias em diversos eventos em Barcelona, com a presença de pessoas de 124 países diferentes. A maior parte do público é de trintões, com ampla maioria de homens (esse sendo um comentário feito por mulheres).

Dividido em cinco dias, as três noites principais são de quinta a sábado no Parc del Fórum e seus oito palcos. Nos outro dias (quarta e domingo) há shows gratuitos em museus e casas de show, como contrapartida para cidade.
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Dia 01
Andy Shauf, Julien Baker, Beak>, O Terno, Kamasi Washington, Suuns, Floating Points, Tame Impala, John Carpenter, Mbogwana Star e LCD Soundsystem

Buenos dias! #primaveraurbe

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Primeiro dia num festival que você nunca esteve é complicado. Não se sabe ainda onde fica nada, a sinalização não era boa e, pra piorar, o primeiro show do dia era um dos que mais queria ver. Após encontrar o Auditori Rockdelux, que fica fora da parte principal do festival, cheguei a tempo de pegar um lugar na primeira fila e assistir o Andy Shauf.

Acompanhado de um baterista num kit simples, com surdo bem abafado, teclado e baixo, Andy se revezou entre a guitarra e o violão de aço. As primeiras poltronas ficam na mesma altura e bem perto do palco, sem grade de separação, até a fumaça do gelo seco que abraçava os músicas envolvia também parte do púbico. Cenário perfeito para um show delicado, com arranjos lindos e suaves, proporcionando mudanças sutis de dinâmica em seus momentos altos.

O sol rachando lá fora e na escuridão do auditório Andy Shauf optou por formatos diferentes ao vivo. De cara, o clarinete que atravessa o ótimo disco do ano passado sumiu, sendo substituído pelo teclado.

ATUALIZAÇÃO: acabei de descobrir que Andy lançou um novo disco, “The Party”, dia 20 de maio, pouco antes do show, motivo pelo qual havia tantas músicas desconhecidas, outra formação e pouquíssimas do “Bearer of Bad News”.

Mesmo com convenções, os arranjos ficaram um pouco mais previsíveis, as vezes monótonos, perdendo a aspereza ou crueza das versões gravadas. Esquecendo as comparações com o disco, o show é ótimo por si só.

Beak> ajudando Bristol a se adaptar ao sol #primaverasound #primaveraurbe

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Saindo do ar condicionado para caloreira e atravessando a ponte e a escadaria que ligam a parte alta a parte baixa do Parc del Fórum, vi uma música da Julien Baker (chato e só fui parar lá porque confundi com a Julia Holter) e subi novamente para conferir o Beak> no palco Primavera (o único que não leva o nome de um patrocinador).

Honrando a tradição de Bristol, casa do Massive Attack e Portishead, o trio de guitarra, teclado e batera passeou por algumas influências que se espera vindo desse berço: baixo dub, bateria ora jazz, ora disco punk, teclado psicodélico e pegada dançante.

O som é bom mas não diz muito a que veio. Rapidamente se tornou um tanto repetitivo, como se fossem mais temas do que músicas acabadas, cansando.

O Terno 🇧🇷 Palco escondido mas até que tem uma galerinha #primaveraound #primaveraurbe

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Saindo antes do fim deu tempo de pegar um pedacinho do show dos paulistanos d’O Terno. Tocando num dos palcos secundários o NightPro, já passavam das 20h e o dia seguia claro (ah, a temporada primavera-verão no hemisfério norte…) e os meninos conseguiram reunir umas poucas dezenas de pessoas, entre elas muitos brasileiros.

Apesar de não ser um dos palcos de maior destaque, o NightPro fica num ponto estratégico da caminhada entre as duas áreas mais importantes do festival e é também o que tem o visual mais legal, colado na água. Não deu pra ver até o final porque era quase hora de outro dos destaques do festival.

Kamasi Washington, puta que los pares! 😱😱😱 #primaverasound #primaveraurbe

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De volta ao Auditori, a fila para o Kamasi Washington estava gigantesca. Ainda bem que o auditório é enorme e coube quase todo mundo, pois seria muita injustiça pessoas fazendo fila pra ouvir free jazz num festival predominantemente de rock ficarem sem ouvir o saxofonista. Entra daqui, pergunta de lá, descolei novamente uma cadeira na primeira fila.

Com uma big band incluindo trombonista, tecladista percussionista, vocalista de apoio, dois bateristas e um contrabaixista que arregaçou tudo, Kamasi fez um dos shows do festival. Indo de temas funkeados e acessíveis a esporros experimentais, um Kamasi Washington totalmente relaxado demonstrou controle sobre a banda entrosada. De quebra ainda teve uma canja do próprio pai.

Em apenas dois shows o Auditori já provava seu valor, mas infelizmente não vi nenhum outro show ali.

O trap rock do Suuns faz um clima hein #primaverasound #primaveraurbe

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Já estava escurecendo quando acabou o show e só deu tempo de pegar uma música do Suuns no palco ao lado. Estava animado, gostaria de ter visto mais, mas não deu muito pra sacar o som. A que ouvi parecia uma banda de rock trap (soa desastroso, mas isso é pra ser bom). Fora essa, a trilha dos vídeos com vinhetas que passavam antes de cada show do festival era o trecho de uma música deles.

Floating Points live, só no transe #primaverasound #primaveraurbe

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Descendo a escadaria do anfiteatro (essa é uma segunda escadaria, diferente da primeira), o Floating Points apresentou no palco Rayban (o mais legal deles) sua versão ao vivo, com bateria e todo o resto, num show bem viajante e chapado. Coisa boa. Correria de lá para pegar o Tame Impala no palco H&M, um dos dois principais. E não deu pra ver foi nada.

Os australianos arrastaram quase todo festival para o lugar, provando que apesar da torcida de nariz de alguns fãs, o terceiro disco catapultou mesmo a carreira da banda. Kevin Parker deve saber o que está fazendo.

Um dos grandes defeitos do festival, o som baixo fica ainda mais grave pela falta de torres de repetição no amplo espaço aberto. Some-se a isso que houve um apagão durante o show e calcule o tamanho da saudade de vê-los no Imperator ou no Circo Voador.

John Carpenter aterrorizando a plateia #turumtss #primaverasound #primaveraurbe

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Atravessando o complexo mais uma vez, dei de cara com o diretor cult John Carpenter apresentando algumas trilhas dos seus filmes, fazendo o que era apenas o seu segundo show. Interessante mais para fãs e pela curiosa proposta.

Mbongwana Stars mei careta… 🤔 #primaverasound #primaveraurbe

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Sem muita animação com essa volta do LCD Soundsystem (e satisfeito com a quantidade de shows que já vi da banda), optei por conferir o Mbogwana Star, dos quais conhecia apenas uma música. Ao vivo o lance veio bem careta, uma formação básica que não empolgou o suficiente para afastar o comichão que repetia dentro da minha cabeça: “vai mesmo perder o LCD? vai mesmo perder o LCD?”.

Não vou não. Corri de volta para o palco Heineken, um dos dois principais e… de novo, não dava pra ouvir nada. LCD com som baixo não funciona, então furando a barreira humana cheguei o mais perto que pude do palco, bem perto na verdade, e… nada.

O peso da viagem no dia anterior, o fuso e o cansaço do próprio dia, além do fato de que o LCD parece nunca ter parado, com tudo que há de bom e ruim nisso (show afiado, mas idêntico ao que se viu cinco anos atrás), trouxeram a voz novamente, dessa vez dizendo “quero dormir” e lembrava “o metrô está em greve e vai ser complicada a volta”.

Dei ouvido as vozes novamente e fui pra casa quando já eram 2h15 da manhã e o James Murphy estava na metade do set.

Dia 02
Alex G, Moses Sumney, Steve Gunn, NAO, Beirut, Radiohead, Last Shadow Puppets, Animal Collective, Holly Herndon, Beach House, Avalanches e DJ Koze

Anochecer en Barça #primaverasound #primaveraurbe

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Nada como dormir e acordar descansado. A não ser, claro que você tenha passado 1h30 brigando pra tirar uma lente de contato que aparentemente nunca esteve lá e não tenha dormido muito ou mesmo descansado. E logo no dia do sufoco, com 12 shows para ver, chegando bem cedo e saindo bem tarde.

Você pode perguntar: dá pra ver 12 shows em nove horas? Não, não dá. Então cabe a cada artista cativar o coração do ouvinte e conquistar mais minutos. Festival é isso aí, menu degustação ligado e que vença o melhor.

O primeiro derrotado do dia foi o Alex G no palco Adidas. Tenho certa preguiça de folk, porém o que ouvi dele pareceu bem legal. Ao vivo o rapaz abandona o violão, empunha uma guitarra e embarca uma viagem noventista indie experimental que, com essa descrição, não preciso nem dizer o resultado.

Logo ao lado, no palco Pitchfork, começava o Moses Sumney, querido da rádio KCRW. Seu som é muito introspectivo e ao vê-lo no palco acompanhado apenas de três microfones, uma guitarra e uma mesa de efeitos, lutando contra o zum zum zum ao redor parecia o prospecto de mais uma derrota. Mas o carisma não é considerado algo tão forte a toa. Nem a barulheira do Alex G ao lado conseguiu atrapalhar.

Montando bases bom beat box e conversando com o público sem parar, Sumney, visivelmente feliz, botou a platéia no bolso. Cantando num falsete que por vezes faz lembrar o Finley Quaye, o cantor saiu aclamado do palco.

Steve Gunn e o por de sol de concreto #primaverasound #primaveraurbe

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Quicando novamente pro palco Adidas, logo ao lado, Steve Gunn fez um show que teria sido uma trilha ótima para uma espreguiçada, não fosse a falta de um lugar legal pra deitar e curtir o som. Como o Tame Impala na noite anterior, Gunn também sofre com uma pane no som.

De volta ao Pitchfork, a NAO fez o que deve ter sido o show de estética mais pop do festival. Com ótimas músicas gravadas, o show estava chato. E muito longe dali, uma escadaria ou ladeiras depois, o Beirut tocava no H&M.

Beirut #primaverasound #primaveraurbe

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Por algum motivo o curral VIP (não apenas para convidados, mas também para quem pagou por um ingresso ainda mais caro) que fica bem em frente ao palco estava aberto e deu pra ver Zach Condon de perto. O show estava ótimo, final de tarde, mas como já havia visto (e aposto que ele ainda paga essa ida ao Brasil em breve), tive a infeliz ideia de atravessar o complexo inteiro novamente para ver o Freddie Gibbs, apenas para descobrir que o show havia sido cancelado. Fiquei sem um, nem o outro.

Menos mal que com esse tempo de sobra, pude chegar mais cedo para tentar pegar um lugar no Radiohead. Com os problemas de volume da noite anterior e sabendo que ver o Radiohead de longe e baixo não seria exatamente o ideal, estava considerando até mesmo perder o show por falta de disposição de ficar brigando por um lugar. Então resolvi tentar e deu para ao menos ficar num lugar que deu pra ouvir o show direito.

Ao contrário do que pensava, no entanto, o repertório do show não priorizou o disco novo. Como ainda não está no Spotify e tive preguiça de baixar, estava ansioso por essa primeira audição ao vivo que acabou não vindo. O cenário, sempre um ponto alto dos ingleses, também não surpreendeu, parecendo um arremedo do telão da turnê de “In Rainbows”com as luzes de palco do “King of Limbs”.

Num espaço daquele tamanho, as experimentações visuais podiam se manter mais ao palco, fazendo melhor uso do telão, pois para quem estava longe, estava bem difícil de entender o que se passava no palco. Ruim não foi, porque, mesmo assim, chato não é. Mesmo que a adoração messiânica dos fãs (que a banda em sua atitude blasé finge que não gosta) as vezes dê no saco. Mas é aquilo, pra mim foi mais do mesmo – mesmo que o mesmo seja mesmo muito bom.

Holly Herndon entortando as coisa tudo #primaverasound #primaverasound

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No final do show ainda deu pra pegar um pedaço da tiração de onda de Alex Turner a frente do seu Last Shadow Puppets no palco oposto. Depois de mais de duas horas parado no mesmo lugar para ver o Radiohead, a pedida era sentar e dar uma descansada em algum lugar.

Hora de atravessar o Parc inteiro mais uma vez pra tentar o Animal Collective (onde eu estava com a cabeça?). Não deu. Tentar então o Holly Herndon, um pouco mais longe ainda. E estava bem bom, bem doido, interagindo com a plateia através de mensagens escritas no telão, como se fosse um chat (incluindo um alô pro Radiohead).

Beach House, 2:30 da manhã, tocando pra umas 20 mil pessoas #primaverasound #primaveraurbe

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Tarde pra dedéu pra um show com a levada do Beach House, já eram 2h quando Vicotria Legrand e companhia ninaram uma plateia surpreendentemente gigantesca, de umas 20 mil pessoas, num dos palcos principais. Não mudou muito do show que fizeram no Rio, porque nada ali muda muito, mas o cenário novo estava muito bonito e o Beach House é classe.

Um do artistas que mais causaram burburinho no pré-Primavera, o Avalanches era uma das atrações mais aguardadas. Sem lançar disco novo desde 2000, quando lançaram seu único, “Since I Left You”, famoso pelos mais de 350 samples utilizados, a dupla australiana havia anunciado no dia anterior que vem um disco novo por aí (algo que já estavam dando dicas há pelo menos duas semanas em redes sociais). O set do festival foi bem de pista, bastante funk, não dá pra saber o que ali vai estar no novo trabalho, mas foi bem animado.

E fechando a noite, DJ Koze #primaverasound #primaveraurbe

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Quatro y vinte de la matin DJ Koze começou seu set. Estava ansioso para conferi-lo ao vivo. Ele começou na maciota, mas depois descambou pra um tech house reto pra frito ver que não animou ficar. Isso ou estava cansado. Ou as duas coisas. Era hora de partir.

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Dia 03
Brian Wilson, Pusha T, Orchestra Baobab, Action Bronson, Sigur Rós, Julia Holter, Pantha du Prince e Islam Chipsy & Eek (+ Mudhoney e Black Lips)

Se alguém se deu ao trabalho de fazer as contas (claro que não), o sono estava beirando seis horas por noite, após andar em méida 20km por dia (segundo o gps de um amigo), muito pouco para o pique que um festival desses exige. Por isso, no terceiro dia foi vez de chegar um pouco mais tarde.

20h, “final de tarde”, a noite se aproximando no palco principal e Brian Wilson tocando o clássico “Pet Sounds” na íntegra, comemorando os 50 anos do disco que inspirou os Beatles a compor outro clássico, o disco “Sgt. Peppers”. Terminado o disco, ainda emendou clássicos dos Beach Boys.

PrimaveraSound2016_BrianWilson_Illustration-Ben Rubin
ilustração: @bwrubin

Todo festival desse porte guarda um show que, quando você olhar pra trás, vai te fazer ter certeza que valeu a pena todo o esforço e investimento pra ir. No Primavera Sound 2016 pra mim foi esse.

PrimaveraSound2016_OrchestraBaobab_Illustration-Ben Rubin
ilustração: @bwrubin

Ficou difícil pra todo mundo depois desse show e não ia ser o Pusha T quem ia fazer o trabalho de conquistar atenção depois disso. E não fez mesmo. Show de hip hop apenas com DJ e MC é chato pra dedéu e de lá corri pra Orchestra Baobab.

Animados, suingados, mântricos e até mesmo caribenhos via carnaval de Salvador, os africanos da Baobab botaram pra quebrar e fizeram um showzaço. Transe completo, guitarras cantando, percussão comendo solta e metaleira fervendo, entrou também no topo da lista de melhores do festival.

Action Bronson #primaverasound #primaveraurbe

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Pra você ver como são as coisas, o rapper Action Bronson, mesmo acompanhado apenas pro um DJ e enfrentando mais um apagão no som, estrondou o palco Primavera com uma presença de palco impressionante. Deu vontade de ver mais do que as quatro primeiras músicas, mas tinha Sigur Rós do outro lado do Parc e a caminhada precisava começar.

Num lindo cenário de luzes e projeções, como lhe é característico, com as cores variando entre o azul, vermelho e branco, bem viajante. As fortes luzes de serviço do festival, iluminando a praça de alimentação logo atrás do palco, atrapalharam bastante o efeito.

Em todo caso, como no caso do Radiohead, quando uma banda fica desse tamanho e faz shows dessa magnitude, o entendimento completo dos efeitos não deveriam ficar restritos a quem consegue uma visão frontal do palco.

Como aconteceu na noite anterior com o Beach House, novamente a combinação de show chapado com altas horas da madrugada não caiu bem. Uma passada pela Julia Holter não convenceu e restava aguardar mais uma hora, até as 3h, para conferir o Pantha du Prince. E eles não decepcionaram.

Vestindo espelhos convexos na cabeça, o trio de batera e dois laptops produziu um efeito visual sombrio, fazendo o clima pro som aguardado. Surpreendentemente, eles vieram forte pra pista, fazendo um som mais acessível do que o esperado e botaram o anfiteatro pra balançar.

Islam Chipsy & Eek (saideira, tá difícil ir embora) #primaverasound #primaveraurbe

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Na saída ainda deu pra dar uma bizoiada no Islam Chipsy & Eek, só que o sujeito martelando a caixa de uma das duas baterias como se pregasse algo na parede não animou a ficar.

No dia seguinte, domingo, foi dia de passear. Mesmo assim acabei topando com o show do Mudhoney e Black Lips no CCCB. Vi mais um pouquinho, mas a cabeça já estava longe. Hora de voltar pra casa.

terça-feira

7

junho 2016

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O Globo, Junho/2016

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O Globo - Brasil - Primavera Sound 2016

Cobertura do Primavera Sound Barcelona 2016 que escrevi para o Globo.

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Porque é primavera
Em sua 16ª edição, festival reuniu 200 mil pessoas ao longo de cinco dias e teve um show pouco surpreendente do Radiohead,principal de suas 130 atrações
por Bruno Natal

BARCELONA — Ano após ano, o Primavera Sound, em Barcelona, vem conquistando uma reputação que o bota em destaque na temporada de verão do Hemisfério Norte. Em 2016, desde o anúncio da escalação, o festival despontou talvez como o mais aguardado do ano. O crescimento não é repentino. Em seu 16º ano, o Primavera Sound passou de um público de 8 mil pessoas na primeira edição para 200 mil na que se encerrou no domingo, com gente de 124 países, segundo a produção do evento.

Entre as 130 atrações, com destaque para o rock e o pop, apresentaram-se Radiohead, Tame Impala, Brian Wilson, LCD Soundsystem, The Last Shadow Puppets, PJ Harvey, Air, Beirut, Goat, Action Bronson, Alex G, Andy Shauf e Nao. Representando o Brasil, os grupos O Terno, Aldo The Band e Inky tocaram num palco secundário, com público diminuto, porém atento.

Embora o foco principal esteja nos três dias de música no Parc Del Forum, espaço de exposições na orla barceloneta, o Primavera Sound teve duração de cinco dias, com mais shows em outras partes da cidade, como o Beach Club, casas de shows e os museus MACBA e CCCB – alguns deles gratuitos, como contrapartida ao investimento oficial da prefeitura local. Além dos shows, houve também o encontro PrimaveraPro, com 3.500 cadastrados para assistir a palestras e oficinas de profissionais da música.

RADIOHEAD: POUCAS MÚSICAS DO NOVO CD

Principal atração, o Radiohead fez um show correto – o que, no parâmetro da banda, é algo grandioso. O Primavera parou para receber o grupo, reunindo praticamente todos os presentes no espaço dos palcos principais.

Mesmo em turnê do novo disco, quem esperava ouvir o trabalho na íntegra teve que se contentar com apenas quatro músicas de “A moon shaped pool’’. O cenário, sempre um dos destaques dos shows dos ingleses, desta vez não surpreendeu, parecendo uma variação do que se viu nas turnês de “In rainbows’’ (nos telões) e “King of limbs” (nas luzes de palco). O repertório da banda, porém, garantiu o espetáculo e a alegria dos fãs.

O LCD Soundsystem, de volta da aposentadoria cinco anos após anunciar seu fim, tampouco surpreendeu. Sem músicas novas, fez um show idêntico ao da última turnê, como se tivesse parado no tempo – com tudo que há de bom e de ruim nisso. O Tame Impala impressionou pela quantidade de pessoas que arrastou para o segundo palco principal, tornando difícil conferir a apresentação. Além da lotação, os australianos enfrentaram problemas com o equipamento de som, que sofreu um apagão em dado momento.

Apesar da boa qualidade do que se ouvia, houve reclamações quanto ao volume baixo, principalmente nos palcos principais, assim como problemas técnicos que afetaram também os shows de Steve Gunn, Action Bronson e do diretor cult John Carpenter, fazendo a segunda apresentação de sua vida tocando trilhas de seus filmes.

PRÓXIMA PARADA É PORTUGAL

Ao contrário de festivais em localidades mais distantes ou em parques, o Primavera aconteceu no meio de Barcelona e foi totalmente urbano. A área é toda concretada e há muitas ladeiras e escadas, o que torna as caminhadas de um palco a outro pouco agradáveis. Apesar de a noite cair apenas às 22h, o festival começou tarde, no fim do dia. Estranhamente, algumas atrações de som mais lento e contemplativo, como Beach House e os islandeses do Sigur Rós, foram escaladas de madrugada, atrapalhando um pouco o andamento.

Revelação do jazz, o saxofonista Kamasi Washington foi um dos destaques, num show avassalador com sua big band no belo auditório fechado que faz parte do Primavera Sound. Comemorando 50 anos do disco clássico “Pet sounds’’ do seu Beach Boys, Brian Wilson fez um show emocionante no fim de tarde. Os grupos africanos Mbongwana Star e Orchestra Baobab garantiram o suingue, também reunindo bastante gente num dos palcos mais bem localizados, um anfiteatro na beira do mar.

Neste fim de semana tem repeteco, em versão menor, o NOS Primavera Porto, em Portugal, mostrando que as ambições do festival são grandes.

quinta-feira

3

dezembro 2015

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The Chemical Brothers no Rio: o final apoteótico para um ano catártico

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Chemicalbrothers_rio_2015_queremos_01

2015, essa besta em forma de ano, vai chegando ao final, deixando lições e aprendizados. Falando especificamente do Queremos!, foi um dos anos em que mais fizemos shows e corremos mais riscos.

Pensando em retrospecto, a hashtag #Queremos5anos serviu internamente mais para que mantivéssemos a sanidade e o foco em tudo que realizamos, do que para comemorar o aniversário de 5 anos de shows (que incluiu até um livro de posters).

Nesse cenário, o show do The Chemical Brothers foi um final apoteótico, para um ano catártico. Para lavar a alma e começar 2016 limpo, pronto para outras – porque sempre vem mais coisas, boas e complicadas. Nada melhor do que um show imperdível. Onde tiver Chemical Brothers, estou lá (Creamfields Liverpool e Pacaembú em 2004, Londres e Rock Werchter em 2008, Coachella em 2011…). É um dos melhores shows da praça.

Com 10 toneladas de equipamento de luz e som, um estúdio inteiro em cima do palco, com sintetizadores, sequenciadores, e samplers, a apresentação foi um massacre áudio-visual. Pilhas de sub-woofers amassaram o peito dos presentes, silenciando até os eventuais críticos da acústica do Vivo Rio.

Enquanto dois robôs gigantescos atiravam lasers pelos olhos, camadas de raios complementavam as imagens do telão, que mesmo resvalando na breguice noventista, escapava pelo contexto e história estética construída pela dupla nas duas últimas décadas. Entre hits do passado, as músicas do disco de 2015 se inseriam sem perda de qualidade, comprovando a qualidade das produções do The Chemical Brothers. Os caras arrebentam em qualquer estilo que se proponham se aventurar.

Se visualmente a pirâmide do Daft Punk continua reinando absoluta entre as apresentações de música eletrônica, sonoramente o que os irmãos químicos fazem ao vivo deixa praticamente todos os outros para trás. Operando o hardware ao vivo, tocando mesmo, eles montam e desmontam as músicas com uma precisão admirável. Quem fica perdido olhando pra uma tela de computador é o público, não os artista, na tentativa de registrar um pouco da psicodelia.

Não estava lotado, longe disso. O prejuízo foi grande, o aprendizado ainda maior. Mesmo entendendo a situação econômica atual (e o ingresso não era barato, por conta dos custos também altos), uma pena uma cidade receber um show desse porte e a casa estar vazia (fazia 16 anos que não se apresentavam por aqui). Um show que transcende o rótulo “música eletrônica”. É uma instalação artística, coisa pra ser vista por qualquer um que aprecie esse tipo de coisa, independente do gosto musica. Quem viu, viu.

Felizmente,  para cada pessoa que só vai se for de graça (VIP é quem paga, ô conceito difícil de implementar nessa cidade…), que reclama das tentativas de salvar um show do prejuízo, tem outras 10 que apoiam, que fazem acontecer e valorizam o esforço que é botar shows como esse de pé.

Na segunda, dia seguinte ao show, Facebook e Instagram estavam abarrotados de relatos de fãs muito felizes com o show. E também mensagens de apoio ao Queremos! após as polêmicas, como esse comentário, na foto que a dupla fez com o poster do show (único registro oficial, já que são reservados não deram entrevista nem pro vídeo oficial – a única que já consegui com eles, foi na marra).

Chemicalbrothers_rio_2015_queremos_2

 

Ou essa:

Chemicalbrothers_rio_2015_queremos

Ainda essa rolou essa belezura, como um presente para fechar o ciclo. Vem 2016, vem que vai ser ainda melhor.

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sexta-feira

18

setembro 2015

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Aldo The Band, “Giant Flea” (2015)

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Não cheguei a ouvir o primeiro disco do Aldo The Band (dos irmãos Faria, do Faria & Mori, comentado por aqui em 2011)  – o nome é tão esquisito (ruim mesmo) que não despertou curiosidade. Achava quer era uma coisa meio “rock brasileiro” e ouvindo o segundo disco, “Giant Flea”, é bem mais eletrônico do que esperava. Embora seja bastante referencial, soando como LCD Soundsystem e todas as referências que eles mesmos utilizaram, pós-punk e etc, é muito bem feito e soa como algo bom pra pista. Curioso para ver ao vivo.

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