URBe | por Bruno Natal

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Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo. Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.

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sexta-feira

4

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Bemônio

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bemonio_novasfrequencias2016

Oitavo post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

Vi o primeiro show do Bemônio  em 2012 e a cada vez que vejo a experiência é totalmente diferente. Tem vezes que gosto mais, tem vezes que gosto menos, mas é absolutamente impressionante como eles podem soar diferente dependendo do lugar onde tocam e da vibe que circula naquele dia específico.

A gente sempre faz shows inéditos de artistas nacionais no festival. No caso de artistas cariocas, pedimos shows especiais, que nunca aconteceram, muitas vezes conversando e propondo coisas. Daí o Bemônio resolveu tocar por cima de um filme polonês de 1961 vencedor do Júri em Cannes. O tema do filme? Exorcismo, claro.

Chico Dub – Qual foi a sua ideia inicial ao criar o Bemônio, como foi a concepção da proposta? Você já tinha feito música antes do projeto, mas como se deu o click do tipo, “cara, é isso que quero fazer, me dedicar, criar uma carreira musical?”

Paulo – Sempre quis fazer música ou participar de alguma forma do meio. Nunca tive uma banda propriamente dita, havia sim um projeto experimental de música eletrônica que simulava um kiks graves dando a impressão de uma sonoridade meio tribal, que no caso se chamava Creep Diets, isso lá pra 98… Meu gosto musical não batia com a dos meus amigos de punk e hardcore da época, por isso nunca tive banda… E não sabia, e nem sei, tocar algum instrumento.

Mas sobre o tal projeto, nunca tinha pensado em levar a sério, era apenas uma forma inicial de se expor. Mas não durou muito pois não havia equipamento para realizar shows e dependia de um PC Pentium para fazer…Os equipamentos na época era absurdamente caros para o que eu queria fazer (MPC, Synth)…

Em 2008, em Teresópolis na casa dos meus pais, eu revi (pela vigésima vez) o filme A Profecia. Durante a abertura eu tive um estalo, algo que me veio a recordar uma sensação que tinha no passado, e de certa forma até hoje, do medo e da impressão de certo modo obscura da Igreja e seu entorno. Digo isso focando principalmente na acústica, reverberação que há no canto gregoriano em conjunto ao ambiente decorado com as imagens e vitrais religiosos. Sempre achei isso muito denso, assustador um pouco, porém extremamente denso. Isso foi a minha relação ao filme, ou seja, de que um filme de terror pudesse ter como trilha inicial algo extremamente religioso e soturno ao invés das trilhas normalmente utilizadas pra esse gênero de filme.

Em 2009, comecei a adquirir tais equipamentos, mas o processo até surgir o bemônio demorou 2 anos, isso porque precisava achar uma sonoridade, algo que me agradasse. Muitas vezes o equipamento por si só não era suficiente, necessitava incorporar uma sequência de pedais pertinente ao que que queria.

Em Janeiro de 2012, consegui atingir um ponto de partida para esse projeto e seu nome: bemônio (sim com B para gerar um ruído de comunicação) o mesmo ruído que há num canto gregoriano sendo interpretado como algo assustador.

Sendo assim, a idéia é de gerar esse desconforto, algo que traga o religioso mas de forma incômoda, que seja uma experiência sensorial na qual o ouvinte entre numa espécie de transe, imersão.

Minha meta sim, é poder viver de música, mas isso apenas um dia após o outro e dedicação pra se tornar realidade…

Continuo sem saber tocar instrumento, sou apenas um pseudo-músico, no quesito prática músical, no que toco…

Chico Dub – Pra quem foi feita a música do Bemônio?

Paulo – Não tem como rotular um público, pois não considero bemônio uma banda, mas sim um projeto musical de imersão. Cada ouvinte terá sua interpretação e experiência vivida ao ouvir. Não tocamos músicas do álbum. Não temos uma forma tradicional de banda. Apenas buscamos o que o público “entre” em tal imersão.

Chico Dub – Como o som do projeto foi mudando e se adaptando a partir da – cada vez maior – participação do Gustavo Matos e do Eduardo Manso?

Paulo – Eu não pensava em ter ninguém além de mim. Não queria que o bemônio se tornasse uma banda tradicional, e ainda por ser algo pessoal seria muito difícil conseguir orientar ou fazer o outro entender o som e o que queria expor.

Tanto o Manso quanto o Matos não foram chamados pra entrar na banda. Mas eles pediram pra ingressar exatamente pelo interesse e compreensão do projeto. Sendo assim, muita coisa mudou e evoluiu muito graças a eles 2 e ao talento deles.

Chico Dub – Como vc tem percebido o público do bemônio e da cena de música experiemental como um todo? Aumentou? Se manteve?

Paulo – Acho que aumentou, ainda estamos num começo e ainda temos muito chão pela frente… Mas, sim, o público vem aumentando e criando maiores interesses pelo tipo de som e experiência de shows.

Chico Dub – Qual vai ser o clima do show no Novas Frequências? Porque a escolha do filme “Madre Teresa dos Anjos”?

Paulo – Vai ser o objetivo do bemônio, fazer o público, ou a quem escuta, entrar profundamente em um transe, em uma imersão de sensorial: tristeza, dor, arrependimento, paz, compaixão, ódio, agonia, fé e devoção… Por isso do filme escolhido.

quinta-feira

3

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Pigmalião

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pigmaliao_frentebolivarista_novasfrequencias2016

Sétimo post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

O Pigmalião é um dos codinomes do Daniel Lucas, produtor carioca que está por traz da Frente Bolivarista, um selo que reune uma turma muito boa de produtores daqui e da América Latina. É um movimento que me faz lembrar do portenho ZZK Records e consequentemente da Dancing Cheetah. Vejo agora, em 2015, uma integração muito maior (mas que ainda precisa aumentar!) entre nós, de lingua portuguesa y nuestros amigos, e isso me deixa bem contente. Avante, Daniel!

Chico Dub – Pigmalião e a Frente Bolivarista têm papel fundamental no impulso de todo um novo movimento musical. O que você espera dessa nova identidade visual e sonora que está surgindo?

Pigmalião – Acredito que é o inicio de uma nova geração de artistas que buscam em suas raízes inspiração para criar modelos estéticos que fogem do obvio e do mainstream. O volume de conteúdo que vem sendo criado por artistas do Brasil, Argentina, Mexico, Chile, Colombia entre outros é enorme.

Chico Dub – Quais são as maiores influências do seu trabalho?

Pigmalião – Hoje as influencias mais relevantes são aquelas com texturas sonoras desconhecidas, feitas com amor, com vontade. A musica africana, do oriente e o folk da america latina tem muito disso, você sente a emoção real expressada.

Chico Dub – Suas músicas são misturas intrincadas de influências distantes. Como funciona seu processo de composição?

Pigmalião – Tenho mesclado referencias latino americanas às sonoridades mais distintas como tailandesas, iranianas, de Mali etc. A ideia é de uma forma aproximar pela musica estas culturas tão desconexas exaltando seus pontos de interseção e as infinitas combinações de timbres nunca antes exploradas.

Chico Dub – Qual a importância da mensagem política no seu som? E qual você acha que é a importância dela na música em geral?

Pigmalião – O caráter politico deste mix de referencias das minhas produções é o de quebrar fronteiras, aproximar as culturas e buscar mais tolerância e paz entre as pessoas a partir da musica. É um dos papéis da musica também.

Chico Dub – O que você pretende para essa festa do Novas Frequências?

Pigmalião – Para o Festival Novas Frequencias apresento meu projeto Pigmalião (www.soundcloud.com/piglion) que norteia o meu selo Frente Bolivarista nesta busca incessante pelos timbres do mundo. A performance é feita com controladores, drum machine e muita musica minha, edits etc.

quinta-feira

3

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Marginal Men

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Sexto post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

A Wobble é a melhor festa do Rio e o Marginal Men equivale a 2/4 dela. Conseguiram melhor do que ninguém integrar o funk carioca e paulista dentro do guarda chuva da tal bass music (dubstep, juke, trap, grime, 2-step…). Além de ótimos DJs, começaram a produzir tracks recentemente e foi aí que me fisgaram de vez. As duas que encomendei para a Hy Brazil (Vol 7) e para a The Wire (Especial Novas Frequências) são das melhores coisas que ouvi recentemente. Vai ser um luxo só vê-los logo depois do The Bug! Ainda mais com as participações especiais do DJ Sydney e do Pininga.

Chico Dub – O trabalho de vocês, e de outros nomes como Leo Justi e OMULU, é mesmo uma tentativa de desestigmatizar o funk ou é mais sobre fazer as pessoas dançarem e curtirem?

Marginal Men – É fazer as pessoas dançarem. A gente cresceu ouvindo, então nossa trajetória pessoal é muito ligada ao Funk. O Pedro começou a gostar de música eletrónica ouvindo o DJ Malboro na extinta Manchete FM e ia vê-lo tocar nas matinês. O Gustavo, antes de entrar na Wobble, era DJ do Truculência Crew, um grupo de Funk carioca com mais 5 cabeças – dentre eles o Fabio Heinz, que era o mascote e hoje é residente da Wobble e uma das cabeças da RWND Records.

Chico Dub – Vocês ficaram muito famosos depois de uma série de remixes de funkeiros emergentes, como o MC Brinquedo e MC Bin Laden. Porque essa arte do remix é tão atacada e menosprezada nos meios mais tradicionais de música?

Marginal Men – Os remixes para MC Bin Laden com Pesadão Tropical e MC Brinquedo com Ruxell, foram feitos para KL Produtora de São Paulo, casa dos dois MCs. Os “ataques” recentes são contra os bootlegs, remixes não oficiais e de grandes gravadoras. O DJ Sliink de Nova Jérsei pediu que mandássemos para ele a versão completa de “ Scylla no Antares” assim que subimos a prévia no Soundcloud.

Chico Dub – Vocês ainda tem pouco material autoral lançado. O que é possível esperar de um possível primeiro disco?

Marginal Men – Nós começamos a focar mais na produção de som autoral esse ano. Depois das parcerias com Branko, Omulu e várias demos com o Sants. Pro ano que vem, pretendemos fazer um EP só de autoral. Recebemos um convite de um selo de fora mas ainda não podemos contar.

Chico Dub – Como foi trazer nomes de peso da música internacional, como o (recentemente falecido) DJ Rashad, para o Brasil, através da festa de vocês, a Wobble?

Marginal Men – Foi foda. E continua sendo. Com tantos artistas que já passaram pela Wobble durante esses 4 anos, acreditamos estar próximos do que desejamos há tanto tempo: uma cena local posicionada globalmente. Em 2014, 73 artistas, entre nacionais e gringos, tocaram na festa.

As visitas de gente como Addison Groove, Machinedrum e DJ Rashad da Teklife, ano passado, ajudaram a formar uma audiência pro Footwork, gênero que já estava presente nos sets dos residentes. Com isso, em 2015, recebemos mais 2 da Teklife: DJ Spinn, que veio na turnê de lançamento de seu EP no Hyperdub, e o jovem Taso que, em entrevista na Radio Magma, comparou a pista da Wobble na Fosfobox com as da sala 1 do Fabric em Londres e do Berghain em Berlim.

O Plastician, dono do selo Terrorhythm, veio tocar no clube e a na rua durante a Copa do Mundo e voltou pra Londres elogiando a pesquisa dos DJs do Rio no programa The Grime Show; até tocou nosso set na Rinse FM!

Outros gringos fizeram mais que tocar e deram workshops para a nova geração de produtores da cidade. Como Mr. Carmack em novembro de 2014 na Casa Nuvem e Swindle em outubro desse ano na Audio Rebel.

Chico Dub – O que vocês pretendem para essa festa do Novas Frequências? Podem explicar como será a parceria com o Sydney? O Pininga acabou entrando de última hora na festa também, certo?

Marginal Men – Queremos apresentar nossas produções, remixes e mashups no NF, além de testar umas inéditas. O Sydney é do Ceara, mas mora no Rio. Conhecemos o trabalho dele em 2013, através das montagens que ele fez junto com o DJ Mibi. Ele estava usando uns kits de bateria bem diferentes do outros produtores do Rio. E a gente já se esbarrou algumas vezes tocando nas mesmas pistas. Curtimos o live dele, que celebra a era de ouro das montagens, então convidamos ele para apresentar esse trampo no NF.

O Pininga, que veio do Recife, mas mora São Paulo, só foi confirmado tardiamente por causa da agenda dele. Ele é residente da festa Muscles Cavern, tem programa na Radar Radio, da Inglaterra, já tocou tantas vezes na Wobble e, esse ano, lançou sua primeira produção na coletanêa do Hy Brazil. O live dele é um “Baile de corredor hardcore”.

quarta-feira

2

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Auntie Flo & Esa

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Quinto post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

Toquei muito Auntie Flo na saudosa festa Dancing Cheetah e nos meus DJs sets (cada vez mais raros hoje em dia) pós-2013. É um dos artistas de eletrônica de pista com influências africanas e latinas que mais gosto. O bônus é a presença do sul-africano Esa, um parceiro de longa data que o ajudará num live.

Chico Dub – Qual a principal proposta da festa Highlife e da Highlife World Series?

Auntie Flo – A principal função da Highlife é primeiro ser uma festa – queremos que as pessoas se divirtam na pista de dança.  A segunda é explorar música que nos interessam, do mundo todo, música que sentimos que não tem a exposição que merece e música que nós realmente gostamos, apresentando-as de maneira original e que funciona na pista de dança. Queríamos expandir o espectro musical que estava sendo tocado, focando em sons fora da cultura ocidental de música de pista.

A Highlife World Series é uma extensão da festa e foca mais em projetos colaborativos entre músicos que conhecemos em nossas viagens pelo mundo. Queremos explorar novas formas de trabalhar com instrumentos tradicionais e músicos treinados para tocá-los e desenvolver com eles um caminho novo que respeite suas tradições.

Chico Dub – Como as experiências de imersões em Cuba, Uganda e Kenya aconteceram?

Auntie Flo – O processo tem sido bem orgânico, como colaborações surgindo de forma bem determinada. Fazemos contatos durante nossas visitas e então passamos tempo em algum estúdio que consigamos encontrar naquele país, trabalhando de maneira bem próxima com os músicos. Trabalhamos de maneira bem equilibrada com eles, o que esperamos beneficie a música e todos envolvidos.

Chico Dub – O que você conhece de música brasileira e o que pretende fazer com ela? 

Auntie Flo – Não sou um expert em música brasileira, mas já ouvi de maneira não regular por alguns anos. Gosto muito do estilo de tocar bateria como batucada! Não tenho ideia do que irei criar, mas estou ansioso pra ver o que vai sair. 

Chico Dub – Você pensa que a hibridização e pluralização de culturas e influências é o futuro da música?

Auntie Flo –

I have a very romantic view that music can make the world a smaller place, breaking down language and cultural barriers. I’m not sure if it’s the future of music, but in my opinion some of the best music comes from a fusion of styles and with the internet and cheaper travel this is more and more likely to happen. Having said that, it’s important not to water down the sound too much, some of the freshest music comes from a very narrow ‘ghettoised’ perspective so it’s clear there isn’t a correct answer to the question!

Chico Dub – O que o público pode esperar da sua apresentação no Novas Frequências?

Auntie Flo – Sinceramente, não faço ideia! Planejamos criar algo na próxima semana, como resultado das colaborações e conexões que fizermos enquanto estivermos no Rio. Isso pode significar que faremos dois show diferentes, colaborações ou outra coisa qualquer. Vamos ver o que vai acontecer.

terça-feira

1

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Juçara Marçal & Cadu Tenório

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jucaramarcal_cadutenorio_novasfrequencias2016

Quarto post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

Juçara Marçal é a compositora e criadora de Encarnado, provavelmente o melhor álbum brasileiro de 2013. Cadu Tenório é um prolífico compositor da cena carioca de noise/improv, lançando uma média de aproximadamente três álbuns por ano desde 2012. Que dupla! Já vem rolando nos últimos, talvez, dois anos, uma aproximação da canção com estéticas e procedimentos comuns dentro do guarda chuva da música experimental. “Anganga”, um trabalho que atualiza os cantos dos Anganga é baseada nos congados e vissungos – cantos ancestrais dos negros benguelas (Angola) de São João da Chapada, Diamantina, Minas Gerais.

Chico Dub – De onde surgiu a ideia de fazer essa parceria?

Juçara – A parceria surgiu de um convite do Márcio Bulk, que havia acabado de fazer o disco Banquete com o Cadu e teve a idéia de nos juntar. topamos a parada. Eu sugeri de usarmos algumas das cantigas do “canto dos escravos”. o Cadu adorou a ideia e fomos adiante. devagarinho, até firmar o repertório. coisa que só aconteceu em meados deste ano.

Cadu–  O inicio do processo foi bastante lento, até acharmos o tom exato que seria dado ao disco. Conseguimos quando finalizei o arranjo para Canto II, que foi o primeiro que pegamos pra fazer, demorei uns 6 meses do ano passado só nele. Depois disso achamos o ponto de forma tão coesa, na nossa cabeça, que mesmo as músicas inéditas presentes no disco(Eká e Taio), de minha autoria com participação da Ju, absorveram todo o clima e a energia dos Cantos.

Chico Dub – O que do “Anganga” é mais Juçara e o que é mais Cadu? Ou os dois perfis se tornam inseparáveis?

Juçara – Se formos pelo óbvio, as sugestões de canções são minhas, as construções de arranjo são do cadu. mas ouvindo Anganga, o que virou, não dá pra dizer o que é meu, o que é do cadu. Anganga é uma outra coisa, maior que nós.

Cadu – Assino embaixo, a química que bateu entre a gente é tão forte, e acredito que isso fique nítido no palco, que estamos numa relação de simbiose. Durante o processo de composição dos discos, das peças que abrigam os cantos, foi impossível não ser influenciado pela interpretação forte da Ju, assim como quando mandava pra ela os instrumentais já construídos, ela logo sentia a vontade de acrescentar mais ali e regravar os takes de uma nova maneira. E é dança é mais ou menos essa, um influenciando no próximo passo do outro.

Chico Dub – Qual a história por trás da língua das letras que dão corpo à voz de Juçara?

Juçara – Os vissungos, assim como os congados do disco são cantados em dialeto bantu. os vissungos são cantos de trabalho, os congados, cantos de devoção.

Chico Dub – Como exatamente os ruídos de Cadu trazem mais dessa mística afro-brasileira para as canções?

Juçara – Como exatamente? Impossível responder. Só sei que traz.

Chico Dub – A música tem mais ou tem menos função social num mundo hiper-estimulante e hiper-interativo?

Juçara – A música, qualquer forma de arte, é imprescindível pra qualquer agrupamento humano hiper, super, mega qualquer coisa. se há música, ela tem sua função.