chico dub Archive

quarta-feira

29

novembro 2017

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O melhor do festival Novas Frequências 2017

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Final de ano é época de Novas Frequências, festival mais estranho do calendário musical brasileiro. A primeira leitura qualquer um fica perdido. Primeiro, claro, em função dos artistas mesmo – a maioria completamente desconhecida. E depois pelo formato, bastante amplo, com shows em diversos espaços, o que na minha percepção acaba confundindo um pouco na hora de se programar.

O Novas Frequências pode ser cabeçudo e não é um evento para todos, mesmo que as festas sejam sempre mais descontraídas. Porém, é um festival necessário e saudável para o ecossistema musical brasileiro pra ir de coração e ouvidos abertos (a programação completa da 7ª edição do festival está no final do post).

Com menos atrações em relação ao ano anterior – 18 em vez de 50 – e com vários eventos gratuitos ficou mais fácil assistir a tudo.
Para ajudar na tarefa de se localizar nessa vasta oferta de música avançada, ninguém melhor que o curador, Chico Dub.

Confira as sete dicas que ele separou e apresenta com exclusividade para o URBe:

Igreja da Lapa e William Basinski: A Shadow in Time

Ao visitar festivais fora do país é tão comum assistir shows em igreja que desde que o NF começou em 2011 tentamos fazer algo semelhante. Finalmente conseguimos! Gosto de pensar na ideia de que o empurrãozinho foi dado pelo próprio William Basinski, um artista super acostumado a realizar concertos em igrejas do mundo todo. O reverb natural destes edifícios, sua acústica singular, tornam a experiência de escutar um som como o do Basinski ainda mais sublime. O cara trabalha com o desgaste e a decomposição de fitas de rolo. Sua música, loops de ordem minimalista, acabam ganhando então uma textura onírica, etérea, sombria e majestuosa. Detalhe: uma das obras que será tocadas pelo Basinski é uma peça que ele criou para o David Bowie post mortem.

Instalação sonora no MAM: Nicolas Field & Pontogor

Outro sonho antigo: ocupar o MAM RJ com uma instalação em seu pilotis – um espaço dos mais nobres da cidade tanto em função da sua arquitetura singular quanto em função da importância história do museu para as artes visuais brasileiras. Realizar uma instalação site specific que dura todo o período do festival é das coisas mais difíceis de se fazer. Há de se levar tudo, todo o tipo de equipamento e infra-estrutura, as conversas são muitas e os planos parecem mudar dia após dia. Mas, sem dúvida alguma, é um desafio que vale muito a pena. No caso, Nicolas e Pontogor irão criar uma instalação multicanal que traz elementos visuais como terra, sisal, desenhos de giz, fumaça São várias caixas de som que criarão diferentes perspectivas sonoras em todos os pontos do espaço.

Festa em parceria com a O/NDA

Não é de hoje que as festas são o momento mais descontraído e menos, digamos, “difícil” do NF. Seguimos a fórmula este ano com uma dose extra de capricho: o evento está sendo realizado em parceria com a O/NDA, um dos eventos mais legais da cidade nos últimos meses. O local só será anunciado no dia da festa mas é impossível não saber que será demais. Com os internacionais Acid Arab, Aisha Devi, Stellar OM Source e os brasileiros Carrot Green e grassmass, além de sets dos residentes da O/NDA e do anfitrião DeoJorge, essa festola será épica. Anotem minhas palavras!

Dewi de Vree & Patrizia Ruthensteiner apresentam: Magnetoceptia

Essas artistas, uma da Holanda e outra da Áustria, irão apresentar uma performance em três pontos diferentes da cidade: na mesma igreja onde o Basinski irá se apresentar, no pátio externo do Oi Futuro Flamengo e na Lagoa Rodrigo de Freitas (em local exato a ser divulgado em breve). Em cada uma delas, trajes customizados feitos com antenas captam campos eletromagnéticos e os traduzem em sons eletrônicos. O som é desenvolvido de forma site specific e depende dos campos eletromagnéticos presentes no local; é modulado pelas artistas de acordo com suas posições e movimentos em relação ao espaço e entre si. Ou seja, quem for nas três ouvirá sons bastante diferentes uns dos outros!

Otomo Yoshihide & Felipe Zenicola & Renato Godoy

Taí uma oportunidade única de conferir um dos maiores nomes da improvisação mundial, o japonês Otomo Yoshihide. Dono de um currículo invejável e capaz de tocar diversos instrumentos, Otomo irá fazer um set duplo no NF. Primeiro ele vai tocar discos tal qual um turntablist de hip-hop mas com um approach diferente. Sai a técnica do scratch e entra a técnica dos discos e vitrolas “preparadas”. Melhor do que explicar, só vendo o vídeo acima. Daí além de um set solo, Otomo também vai tocar guitarra junto com os improvisadores locais Felipe Zenícola e Renato Godoy, respectivamente baixo e bateria do combo de rock-funk-noise Chinese Cookie Poets.

Phantom Chips

Residências artísticas com objetivos meramente processuais ou de criação de um resultado ou produto final certamente trazem um elemento de risco para um evento. É o famoso “vai que não dá certo?” Mas aí é que está! Exatamente por esse motivo que as residências são tão interessantes; elas abrem inúmeras possibilidades criativas e oferecem ferramentas muitas vezes ainda não utilizadas por artistas – seja em função de uma instalação site specific, seja, sei lá, por conta de uma colaboração com algum artista local, seja pela inspiração trazida por uma temporada em uma cidade ainda não visitada…

Pelos motivos levantados acima estou super curioso para acompanhar o que a artista Phantom Chips irá desenvolver. Em residência por 4 semanas no Rio com o apoio da PRS Foundation e do British Council, a artista, que passeia pela cultura hacker e a cena de noise e power electronics, vai desenvolver um novo “instrumento musical vestível” (sim, isso mesmo!).

ensemBle baBel plays Christian Marclay

Christian Marclay é um dos meus artistas favoritos. Mistura artes visuais e som como ninguém em mídias das mais variadas. Além disso, experimenta e compõe com discos de vinil e toca-discos, ressignificando suas funções originais. Daí que no encerramento do NF no Theatro Municipal, mais especificamente na Sala Mário Tavares, o quinteto suiço ensemBle baBel (sax, guitarra, clarinete, contrabaixo e bateria) vai tocar algumas das partituras escritas por esse artista suiço-americano – todas elas gráficas, com formatos bem incomuns (tem até história em quadrinhos!).

Confira a agenda do Novas Frequências 2017:

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sexta-feira

1

setembro 2017

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Expo: Disco é Cultura

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Com inauguração nessa sexta e abertura no sábado, dia 02 de setembro, no Castelinho do Flamengo, a exposição Disco é Cultura, com curadoria do Chico Dub, analisa a influência do disco de vinil na arte contemporânea nacional, através de esculturas, fotografias, obras interativas, instalações, telas, performances sonoras e discos de nomes como Cildo Meireles, Antonio Dias, Waltercio Caldas, Chelpa Ferro, Chiara Banfi e outros.

Chico Dub liberou o texto  exclusivade para o URBe seu texto de curadoria apresentando a mostra.

 

Disco é Cultura: o disco de vinil na arte contemporânea brasileira

por Chico Dub

A exposição coletiva Disco é Cultura oferece um conjunto significativo da produção artística nacional contemporânea que elege o disco de vinil e o toca discos como ponto de ignição de pesquisa e experimentação. Nos três andares do Castelinho do Flamengo, o visitante encontra um conjunto heterogêneo de obras brasileiras – dentre instalações sonoras, quadros, esculturas, discos conceituais, vídeos, fotografias, obras interativas, manipulações sônicas e objetos-instrumentos – que, de diversas maneiras, ressignificam criativamente as formas e as funções originais dos dispositivos associados ao universo do vinil.

Disco é Cultura reúne obras que investigam o disco como objeto e conceito, considerando-se aí tanto os seus equipamentos de (re)produção quanto os debates em torno dos desenvolvimentos tecnológicos atuais. O trabalho de Chiara Banfi, por exemplo, lança uma perspectiva crítica sobre os novos tempos digitais e aponta para a perda do ritual corpo (audição) e som. Já André Damião abre uma discussão sobre as relações entre hi-fi e lo-fi (ou alta e baixa fidelidade). Outras referências nostálgicas se fazem presente na obra de Felipe Barbosa, onde hits dos anos 80 são mitificados em uma escultura-pódio e no disco de vinil recoberto de tinta acrílica de Bernardo Damasceno, espécie de hino ao silêncio e a contemplação, em contraposição ao ruído e a velocidade extremada de nossa era digital. Existem ainda comentários políticos (nos trabalhos de Pontogor, Romy Pocztaruk e Hugo Frasa); gambiarras tecnológicas (nas vitrolas preparadas da dupla O Grivo); ponderações sobre o silêncio e o vazio (a instalação de Thiago Salas e o disco de Waltercio Caldas); reflexões sobre a morte (a instalação de Gustavo Torres); o orgulho da propriedade e o disco como retrato da individualidade (Felipe Barbosa) etc.

Um recorte significativo da exposição Disco é Cultura reside no chamado “disco de artista”. Potencializado graças aos movimentos intermedia (tais como os conceitualismos, o fluxus, a poesia sonora e o novo realismo), o disco nos anos 60 se torna mais um instrumento de experimentação artística. Nestes trabalhos específicos, o disco – e não a capa – é a própria obra de arte. Cildo Meireles, por exemplo, utiliza osciladores de frequência para esculpir topologias sonoras em forma de fita de moebius e espiral. Ou ainda, para, através de uma espécie de radionovela, discutir as relações da cultura indígena com a cultura branco-portuguesa. Já o disco de Gustavo Torres não apresenta nenhum som externo, apenas os registros de sua própria gravação. E Antonio Dias grava dois sons contínuos e intermitentes: um despertador e a respiração humana.

Famoso por trabalhar com mídias sonoras das mais variadas, o Chelpa Ferro marca presença com um trabalho sonoro em vinil (um múltiplo) e também com uma colagem escultórica de fitas cassete. Outra exceção à regra curatorial também está no trabalho de Barrão – por sinal, um dos três integrantes do Chelpa. Estes pontos fora da curva não são arbitrários. Eles demonstram que a força da palavra “disco” no Brasil é tão potente que o uso deste termo não se esgota no objeto físico, designando qualquer registro sonoro, independente do formato.

Mídia de reprodução sonora dominante. Obsoleto. Decadente. Hipster. O disco de vinil já atravessou inúmeras fases em sua trajetória. Mesmo que volte a entrar em desuso num futuro próximo – ainda que hoje fature mais do que o streaming –, seu lugar no imaginário coletivo como símbolo-mor da fisicalidade sonora e musical, permanecerá para sempre imaculado.

A exposição abre no dia 02 e fica aberta até dia 24 de setembro, no Castelinho do Flamengo.

quarta-feira

30

novembro 2016

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Entrevista: Chico Dub e o festival Novas Frequências 2016

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chicodub

Chega dezembro e com ele mais uma edição do festival Novas Frequências. Conversei com o idealizador e curador, Chico Dub, pra entender melhor a versão 2016 do maior encontro de música avançada do Brasil. A programação completa você confere na página do NF.

Como você avalia a evolução do festival até aqui?

Chico Dub – O Novas Frequências conseguiu em 2016 manter o seu tamanho em relação a edição do ano passado e, o que é mais crucial, sua essência, em um ambiente totalmente desfavorável política e economicamente. Se está difícil pra todo mundo, imagina pra gente, que trabalha com artistas totalmente desconhecidos do público… Complicado saber o que vai acontecer ano que vem, o cenário não parece nada bom…

De qualquer forma, acho que o festival já deixou um claro legado no país. E mesmo sendo uma raridade no cenário de eventos deste tipo no Brasil, não estamos sozinhos – o que não só é excelente, como vital para a nossa continuidade e expansão. A nossa importância está no fato de promovermos uma programação interessada apenas na qualidade e inovação artística. Somos um festival de arte, não estamos envolvidos com entretenimento.

Através do Novas Frequências e de nossos parceiros, conseguimos impulsionar artistas locais e fomentar uma nova cena que está surgindo. Ao mesmo tempo, a nossa visibilidade internacional, consegue, mesmo que de forma tímida, colocar o Rio e o país no mapa global de eventos relacionados.

Como suas viagens por festivais similares pelo mundo impactaram a concepção do Novas Frequências? Como você define o festival hoje em dia?

Chico Dub – Minhas viagens, não tenho nenhum problema em falar isso, influenciaram 100% a concepção do Novas Frequências. É óbvio que pinçando aqui e ali, sempre houveram atrações no Brasil cuja pegada dialogava com os conceitos do NF. De um Aphex Twin e John Zorn no Free Jazz/Tim Festival ao Carsten Nicolai e Pansonic no Sónar SP 2004; de um Wolf Eyes e Fennesz no 4Hype a um William Basinski e Ryoji Ikeda no ON_OFF; de um Deadbeat e Monolake no Eletronika a um Mouse On Mars e Hildur Gudnadottir no Hildur Guðnadóttir no NOVA Música Contemporânea. Mas um festival 100% dedicado a explorações sonoras, do jeito que fazemos, nunca havia rolado.

Aliás, eu defino o Novas Frequências desta forma: um festival de explorações sonoras. O propósito do festival é bem claro: chacoalhar com o status quo dos festivais nacionais ao realizar uma curadoria que está muito além de botar um monte de nomes bacanas tocando num palco; aproximar os universos da música experimental e da arte contemporânea; só trabalhar com o ineditismo; abraçar o Rio de Janeiro de todas as formas possíveis.

Fale um pouco do formato atual? Quais as vantagens e dificuldades de uma programação tão espalhada em termos de datas e lugares?

Chico Dub – O formato do NF é descentralizado, repete o modelo adotado em 2013 e aperfeiçoado em 2014. Essa ideia começou depois que o festival começou a crescer e consequentemente a precisar de outros espaços. Mas daí surgiu a seguinte questão: para onde ir? Porque o Rio de Janeiro não tem muito o lugar do meio, sabe? Parece que as coisas aqui, ou são para poucas pessoas, ou para muitas. Espaços para 200-400 pessoas, infelizmente, são bem escassos.

Ao mesmo tempo, acredito muito que uma variedade de ambientes, lugares, moods e arquiteturas (pelo menos num evento com as nossas características) amplia, e muito, as possibilidades artísticas. O palco de uma casa de show hoje é apenas 1 dentre 1.000 formatos possíveis para uma apresentação ao vivo, seja ela qual for. Na minha opinião, as melhores casas de show do Rio são o Circo Voador, a Audio Rebel e o Oi Futuro Ipanema. Mas nem tudo funciona nesses lugares, saca? Quantas festas, por exemplo, você já viu funcionarem no Circo? Quanto mais espaços diferentes, maior a chance de experimentar novas linguagens e conceitos.

Além de tudo isso que eu falei relacionado a performance, também estamos cada vez mais ligados ao universo da arte sonora/arte contemporânea. Então espaços em galerias e museus fazem muito sentido pra gente.

Em 2016, as novidades referentes aos nossos venues dizem respeito a ocupação no Galpão Gamboa e no Leão Etíope do Méier. Nunca fizemos nada parecido com elas. No primeiro caso, uma programação de 16 horas (com 14 delas abertas ao público) com shows, festa, instalações, lives, rodada de negócios e performances sonoras ligadas a outras formas artísticas. Maratona perde. Já o Leão marca não só a primeira vez que a gente faz evento em praça pública, como a nossa estreia na Zona Norte.

Como foram feitas as escolhas para escalação desse ano?

Chico Dub – Temos este ano uma parceria bem significativa (qualidade & quantidade) com a plataforma europeia SHAPE. Sigla para Sound Heterogenous Art and Performance In Europe, o SHAPE é formado por 16 festivais e centros de arte da Europa. São nomes cascudos do porte do CTM de Berlim, o Les Siestes Eletroniques de Toulouse, o Nemo de Paris, o Unsound da Cracóvia e o TodaysArt de Haia. Essa parceria surgiu em função do SHAPE, que é uma plataforma com financiamento do programa Creative Europe da União Europeia, ser um projeto nascido a partir da rede de festivais ICAS, do qual o Novas Frequências é membro.

Tive acessos aos artistas indicados para trabalhar com o SHAPE em 2017 e consegui pinçar 13 deles de um total de 48. Esse foi o ponto de partida da curadoria deste ano. No exato momento em que eu consegui viabilizar esses artistas, comecei a pensar no resto, nos complementos. Se eu tinha de um lado muita gente ligada a club music e a arte sonora, trouxe um pouco de improvisação, noise e rock de outro lado.

Ao mesmo tempo, quiz, como no ano anterior, que mais ou menos 50% da programação fosse nacional. O foco escolhido acabou tendo uma veia mais geográfica. Resolvi botar São Paulo no holofote porque acho que a cidade vive uma fase musical muito boa. Temos 14 artistas paulistanos no NF este ano.

Faça três roteiros para o festival para esses três perfis buscando: experiências sonoras, experiências visuais e primeiros contatos com o festival.

Chico Dub – Lá vai:

Experiências Sonoras

Sphæræ: CUBE – Mike Rijnierse & Rob Bothof from iii on Vimeo.

Mike Rijnierse é um holandês que traz para o festival a inédita instalação “Relief”, que é menos uma instalação sonora e mais uma instalação sobre eco – a partir de caixas de ultrassom e uma parede reflexiva. Recomendo também “Hecker”, uma peça sonora para 3 lenhadores escrita pelo austríaco Andreas Trobollowitch (que conta com ele e os “lenhadores” cariocas Leo Monteiro e Gil Fortes, ambos da banda IN-SONE). De acordo com o tipo de machado, de lenha e, claro, do corte, se obtém sons diferentes. Impossível não comentar sobre a performance vocal da Stine Janvin Motland, norueguesa que, em “Fake Synthetic Music”, emula com a própria voz algumas das primeiras peças compostas para sintetizador nos anos 60 e 70. Destaco ainda a “33 blast blast beat beat”, peça composta pelo artista sonoro Gustavo Torres para dois bateristas de grindcore e o português Gil Delindro, uma espécie de sonoplasta da natureza, que amplifica, via microfones especiais, o confronto de pedras e outros objetos crus e que trabalha com elementos como fogo, água e gelo.

Experiências Visuais

Antes de entrar em detalhes, é importante mencionar que mesmo as experiências visuais do Novas Frequências (ou pelo menos 90% delas) tem o som como ponto de partida criativa. O norte-americano Rob Mazurek, na inédita instalação “Psychotropic Electric Eel Dreams”, conecta sons/choques emitidos por enguias elétricas do Rio Negro do Amazonas com 100 tubos fluorescentes de LED. Em Destruction Derby, Thiago Miazzo cria ao vivo uma trilha alternativa pro joguinho de Playstation 1 “Destruction Derby”. Isso enquanto a plateia joga o game! Outra experiência muito legal é de “Cosmogonia”, um live cinema com imagens captadas ao redor do globo pelos antropólogo-cineastas franceses Vincent Moon e Priscilla Telmon que mesclam o som direto das filmagens com intervenções ao vivo do libanês Rabih Beaini. Finalizo com “Full Zero” do alemão Ulf Langheinrich, uma performance de dança, via vídeo, que também explora frequências subgraves.

Primeiros contatos com o festival (ou dicas pra quem não saca muito sobre o universo da música avançada-experimental)

Nem tudo é extremo no NF. Há muita música divertida nesta edição, sons feitos pra dançar sem compromisso, sabe? É absolutamente imperdível a festa dia 03/12 no Galpão Gamboa. Simplesmente estamos reuníndo 3 (dos talvez 6 ou 7) coletivos internacionais que estão reformulando a música de pista global: Staycore da Suécia (com Toxe e Mechatok), NAAFI do México (com Fausto Bahía e Mexican Jihad) e Salviatek do Uruguai (com os brasileiros Pininga e Superfície). Esses três coletivos mesclam tudo quanto é tipo de som urbano – reggaeton, cumbia, tribal guarachero, jersey, grime, funk carioca. São ao mesmo tempo pop e vanguardistas. Há ainda, na mesma festa, Elysia Crampton, uma americana de origens bolivianas, que funde tudo isso que eu falei em produções originais que são das mais legais da atualidade.

O #NF2016 também é um prato cheio pra quem gosta do lado mais alternativo e underground do rock. Xiu Xiu e Rakta, por exemplo, estão aí para comprovarem isso.

segunda-feira

15

agosto 2016

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“Real Rio”: coletânea reúne variados artistas da cena carioca

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Coletânea Real Rio de Janeiro URBe

Lançado pela gravadora Mais Um Discos, a coletânea “Real Rio” reúne artistas cariocas ou que vivem no Rio, representando os diversos estilos da música produzida na cidade.

As faixas foram selecionadas por Chico Dub, co-criador do festival Novas Frequências, e vão do rock à música eletrônica, apresentando nomes como BNegão, Ava Rocha, Elza Soares, Cadu Tenório, Benjão, Lila, entre outros, para o público internacional.

O clique da capa é do Cartiê Bressão.

sexta-feira

4

dezembro 2015

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Invasão Novas Frequências: entrevista com Bemônio

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bemonio_novasfrequencias2016

Oitavo post da série Invasão Novas Frequências, organizados pelo idealizador do festival Novas Frequências, Chico Dub.

Vi o primeiro show do Bemônio  em 2012 e a cada vez que vejo a experiência é totalmente diferente. Tem vezes que gosto mais, tem vezes que gosto menos, mas é absolutamente impressionante como eles podem soar diferente dependendo do lugar onde tocam e da vibe que circula naquele dia específico.

A gente sempre faz shows inéditos de artistas nacionais no festival. No caso de artistas cariocas, pedimos shows especiais, que nunca aconteceram, muitas vezes conversando e propondo coisas. Daí o Bemônio resolveu tocar por cima de um filme polonês de 1961 vencedor do Júri em Cannes. O tema do filme? Exorcismo, claro.

Chico Dub – Qual foi a sua ideia inicial ao criar o Bemônio, como foi a concepção da proposta? Você já tinha feito música antes do projeto, mas como se deu o click do tipo, “cara, é isso que quero fazer, me dedicar, criar uma carreira musical?”

Paulo – Sempre quis fazer música ou participar de alguma forma do meio. Nunca tive uma banda propriamente dita, havia sim um projeto experimental de música eletrônica que simulava um kiks graves dando a impressão de uma sonoridade meio tribal, que no caso se chamava Creep Diets, isso lá pra 98… Meu gosto musical não batia com a dos meus amigos de punk e hardcore da época, por isso nunca tive banda… E não sabia, e nem sei, tocar algum instrumento.

Mas sobre o tal projeto, nunca tinha pensado em levar a sério, era apenas uma forma inicial de se expor. Mas não durou muito pois não havia equipamento para realizar shows e dependia de um PC Pentium para fazer…Os equipamentos na época era absurdamente caros para o que eu queria fazer (MPC, Synth)…

Em 2008, em Teresópolis na casa dos meus pais, eu revi (pela vigésima vez) o filme A Profecia. Durante a abertura eu tive um estalo, algo que me veio a recordar uma sensação que tinha no passado, e de certa forma até hoje, do medo e da impressão de certo modo obscura da Igreja e seu entorno. Digo isso focando principalmente na acústica, reverberação que há no canto gregoriano em conjunto ao ambiente decorado com as imagens e vitrais religiosos. Sempre achei isso muito denso, assustador um pouco, porém extremamente denso. Isso foi a minha relação ao filme, ou seja, de que um filme de terror pudesse ter como trilha inicial algo extremamente religioso e soturno ao invés das trilhas normalmente utilizadas pra esse gênero de filme.

Em 2009, comecei a adquirir tais equipamentos, mas o processo até surgir o bemônio demorou 2 anos, isso porque precisava achar uma sonoridade, algo que me agradasse. Muitas vezes o equipamento por si só não era suficiente, necessitava incorporar uma sequência de pedais pertinente ao que que queria.

Em Janeiro de 2012, consegui atingir um ponto de partida para esse projeto e seu nome: bemônio (sim com B para gerar um ruído de comunicação) o mesmo ruído que há num canto gregoriano sendo interpretado como algo assustador.

Sendo assim, a idéia é de gerar esse desconforto, algo que traga o religioso mas de forma incômoda, que seja uma experiência sensorial na qual o ouvinte entre numa espécie de transe, imersão.

Minha meta sim, é poder viver de música, mas isso apenas um dia após o outro e dedicação pra se tornar realidade…

Continuo sem saber tocar instrumento, sou apenas um pseudo-músico, no quesito prática músical, no que toco…

Chico Dub – Pra quem foi feita a música do Bemônio?

Paulo – Não tem como rotular um público, pois não considero bemônio uma banda, mas sim um projeto musical de imersão. Cada ouvinte terá sua interpretação e experiência vivida ao ouvir. Não tocamos músicas do álbum. Não temos uma forma tradicional de banda. Apenas buscamos o que o público “entre” em tal imersão.

Chico Dub – Como o som do projeto foi mudando e se adaptando a partir da – cada vez maior – participação do Gustavo Matos e do Eduardo Manso?

Paulo – Eu não pensava em ter ninguém além de mim. Não queria que o bemônio se tornasse uma banda tradicional, e ainda por ser algo pessoal seria muito difícil conseguir orientar ou fazer o outro entender o som e o que queria expor.

Tanto o Manso quanto o Matos não foram chamados pra entrar na banda. Mas eles pediram pra ingressar exatamente pelo interesse e compreensão do projeto. Sendo assim, muita coisa mudou e evoluiu muito graças a eles 2 e ao talento deles.

Chico Dub – Como vc tem percebido o público do bemônio e da cena de música experiemental como um todo? Aumentou? Se manteve?

Paulo – Acho que aumentou, ainda estamos num começo e ainda temos muito chão pela frente… Mas, sim, o público vem aumentando e criando maiores interesses pelo tipo de som e experiência de shows.

Chico Dub – Qual vai ser o clima do show no Novas Frequências? Porque a escolha do filme “Madre Teresa dos Anjos”?

Paulo – Vai ser o objetivo do bemônio, fazer o público, ou a quem escuta, entrar profundamente em um transe, em uma imersão de sensorial: tristeza, dor, arrependimento, paz, compaixão, ódio, agonia, fé e devoção… Por isso do filme escolhido.

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