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Janeiro 2018

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O furacão BaianaSystem (spoiler: não é hype)

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Russo Passapusso extasiado na Fundição, na última sexta (19/jan)
foto: Rodrigo Ferraz (@rodrigoxfr)/@zimel.com.br

“A gente se vê na rodinha!”, disse uma atriz global para amiga blogueira de moda na porta Fundição Progresso, na entrada do show do BaianaSystem.

Juntos entravam moleques de boné, meninas de camiseta e chinelo, quarentões, DJs, público de música eletrônica, gente do carnaval, playboys… Tudo muito misturado, num show que aconteceu apenas um mês após um show lotado no Circo Voador.

A cena e a frase resumem a febre que se tornou os shows do grupo baiano, constantemente apontado como “melhor show do Brasil”, algo repetido nas rodinhas e legendas do Instagram pós show. O BaianaSystem rompeu a bolha e conseguiu se conectar a um público amplo.

Nome manjado no circuito de música há muitos anos, a banda desponta em 2018 como bola da vez, uma banda brasileira capaz de causar um estrago em qualquer festival internacional do mundo.

A pergunta é: por quê?


Vou responder a justa pergunta do @kallebdaniel

O BaianaSystem é a epítome de tudo que uma banda deve ser hoje: num mercado encharcado de lançamentos diários, mais do que música, uma banda precisa oferecer uma experiência catártica, seja através do discurso ou, ainda melhor, de uma apresentação ao vivo transformadora.

Ao cumprir os três pontos, o BaianaSystem conseguiu unir pontos em uma rede por vezes isolados. O fanático por música e produção, os engajados em causas e aqueles – que mal tem? – que só querem pular.

É justamente por atacar em 360º que só há um caminho para entender (e ser cooptado) o fenômeno BaianaSystem: ao vivo.


foto: Rodrigo Ferraz (@rodrigoxfr/@zimel.com.br)

Quase não fui no show de sexta porque estava com preguiça de pular por duas horas e ficar ensopado de suor. Assim como num bloco de carnaval (onde a banda tem bastante experiência), ir ao show do BaianaSystem é se jogar com tudo. Não há meio termo, não há espaço para o observador. Cada pessoa que vai a um show espalha relatos sobre a experiência e assim o público cresce. Não há outra porta de entrada.

Os vídeos da banda ao vivo, postados no Stories em cascata após cada show, são tentativas de encapsular um sentimento, impossível de conseguir através das imagens tremidas e parcas visões do palco.

Os discos da banda não tem metade da pressão dos shows (salve, SekoBass!), soam magros e não fazem jus, então pode esquecer seu Spotify – o que já é uma bela contribuição da banda para resgatar velhos hábitos de se ouvir música (o disco de remixes “Outras Cidades”, com faixas entortadas por Digitaldubs, Omulu, ATTOOXXÁ, Mag Bo e outros, funciona muito melhor).

Olhando o público diverso, suado, arrebentado, saltando e se chocando por duas horas ininterruptas têm-se a certeza de que o BaianaSystem popularizou o pogo. Gente que nunca passou perto de uma rodinha num show, se joga como se tivesse frequentado shows de punk a vida toda.

Instigado pelo vocalista Russo Passapusso e pelo dançarino Elivan Conceição, a movimentação do público lembra a de um trio elétrico, fazendo com que se percorra toda a pista, cada hora assistindo uma música de um ponto diferente da plateia.


foto: @juliana_ncs

O BaianaSystem não é um caso isolado. Faz parte de um movimento em Salvador conhecido como Bahia Bass (inicialmente Axé Bass), envolvendo vários outros coletivos e festas, como Som Peba, A.MA.SSA, Lord Breu, Mauro Telefunksoul. O destaque atual é o ÀTTØØXXÁ (ouça “Rebola Raba” e imagina isso ao vivo), hoje empresariado pela mesma pessoa que ajudou a trazer o BaianaSystem até aqui.

Idealizado pelo guitarrista Roberto Barreto e desde 2009 no corre, o BaianaSystem teve origem explorando as possibilidades da guitarra baiana (dos mestres Dodô & Osmar) num sound system de reggae. A forte influência jamaicana, africana, caribenha (e, citando BNegão no release da banda, ijexá, afoxé, dancehall, pagodão, sambareggae, cumbia, chula, dub, cabula, kuduro, samba duro, cantiga de roda, eletrônica..) e a potência ao vivo remetem a experimentos das melhores fases de nomes como Nação Zumbi e O Rappa.

Como não poderia deixar de ser nos tempos atuais, a banda é conectada a uma vasta rede de colaboradores (a camiseta do Russo dos niteroienses pioneiros online do Quinto Andar não foi à toa). Na Fundição receberam BNegão, Pedro Luis, Leo Justi e Lucy Alves. Nos discos trabalham com nomes como Ícaro Sá (Orquestra Rumpilezz), Japa System (Timbalada) e Márcio Vitor (vocalista e fundador do Psirico), Chico Corrêa, Mahal Pita e João Meirelles, Daniel Ganjaman, Junix, Siba, Lucas Santtana… Tudo isso informa o resultado final.

O visual da banda é primoroso. Capitaneado por Filipe Cartaxo, as fotos, vídeos e cenografia (o Instagram da banda é muito bem editado),  amarram os vários conceitos da banda, com destaque para as máscaras distribuídas nos shows, unindo o público e ajudando a consolidar o formato de culto em torno da banda.

Quando uma banda tá quente é um coisa, agora, quando fica pelando, começam os questionamentos sobre se não passa tudo de hype. Não é. Hype até pode gerar burburinho além da conta,  mas não consegue causar as reações físicas que o Baiana vem causando nos palcos.

Toda essa teorização vai pro espaço no momento que o show começa e se cai dentro de dos muitos furacões puxados pelo BaianaSystem, girando por toda casa. Para entender o Baiana basta assistir ao vivo. É infalível.

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